Título: DESEJADOS E INDESEJADOS AO MESMO TEMPO
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 30/04/2006, O Mundo, p. 45
Alguns mercados se beneficiam de ilegais
WASHINGTON. Encontrar um motorista de táxi americano em Nova York ou em Washington é quase tão difícil quanto ganhar na loteria. O mesmo acontece com agricultores na Califórnia e nas equipes de técnicos na indústria da informática. A economia dos EUA cada dia mais depende, em parte, da mão-de-obra imigrante ¿ em especial da ilegal, cujos baixos salários garantem bons preços nos supermercados e também no mercado imobiliário, além de lucros mais polpudos para empresas.
Os americanos, em especial os que não concluíram o curso secundário, têm se queixado da concorrência. Estatísticas de 2005 mostram que o desemprego entre eles foi de 14,3% no ano passado, enquanto entre os imigrantes o índice foi de 7,4%.
Quem defende a permanência nos EUA dos cerca de 12 milhões de ilegais costuma utilizar dois argumentos. De um lado eles fazem serviços necessários que americanos se recusam a fazer (ou por um salário que os nativos não aceitam). E, de outro, embora ilegais esses imigrantes são, ao mesmo tempo, consumidores.
Por um lado, além de provocar pressões para baixo nos salários, os imigrantes forçam gastos maiores do governo em escolas, hospitais, serviços públicos em geral. Por outro, são encarados como clientes lucrativos principalmente por bancos, seguradoras, companhias telefônicas, firmas de cartão de crédito e imobiliárias. A renda média das famílias de ilegais é de US$27 mil anuais.
Isso é o suficiente para que muitos estejam qualificados para hipotecas de até US$95 mil. Na hora da venda de um imóvel, ninguém exige um documento de residência no país: vale apenas um comprovante dos rendimentos, seja o trabalhador regular ou ilegal. (J.M.P.)