Título: Política externa na campanha
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 03/05/2006, O GLOBO, p. 2

A política externa nunca foi tema relevante nas campanhas eleitorais brasileiras, diferentemente do que ocorre nos EUA e em países de maior peso internacional. Agora, pode tornar-se ingrediente apimentado. Ontem, a oposição bateu forte no governo Lula pela inércia diante das ameaças do governo boliviano, que acabaram se concretizando, de nacionalizar o petróleo e o gás, e de mais um aviso do Uruguai de que pode deixar o Mercosul.

Foi um duro golpe para a política que o presidente ostenta como uma das jóias de seu mandato. Enquanto o governo externava perplexidade diante do previsível decreto do presidente boliviano Evo Morales, no Congresso tucanos e pefelistas se revezavam atacando a política externa. Chegando do Nordeste, o candidato tucano Geraldo Alckmin voltou a taxá-la de equivocada e errática. Jutahy Júnior, líder do PSDB; José Carlos Aleluia, líder da minoria; e Rodrigo Maia, líder do PFL, encabeçaram a lista de oradores que bateram na mesma tecla: inebriado por um suposto papel de líder continental, disseram todos, Lula supervalorizou as relações com os vizinhos e incensou líderes que agora lhe voltam as costas e adotam medidas que ameaçam os interesses do Brasil. Maia exigiu medidas retaliadoras contra a Bolívia, que desfruta de vantagens aduaneiras e projetos de cooperação.

A declaração do presidente uruguaio Tabaré Vasquez ¿ outro que foi apoiado por Lula antes de ser eleito ¿ de que seu país pode deixar o Mercosul engrossou o coro. Afinal o Brasil vem arcando com os custos maiores da construção do Mercosul.

Alguns aliados de Lula temem outra coisa, uma espécie de comparação entre ele e o nacional-estatista Morales que poderia lhe trazer danos eleitorais. Depois de quase quatro anos de política econômica ortodoxa e governo bem comportado não parece provável que isso ocorra. Mais provável é o questionamento da política externa por uma oposição que precisa diversificar seu discurso de campanha, hoje centrado nos delitos éticos do PT, enquanto o governo exibe trunfos econômicos e sociais. Mais ainda se as relações com a Bolívia desandarem e não for encontrada uma solução aceitável. Fracassadas as negociações da semana passada entre emissários da Bolívia e a Petrobras, bem como a missão do Itamaraty em La Paz, o governo valeu-se ontem das relações pessoais de Lula, que obteve por telefone de Morales a garantia de fornecimento e a reabertura das negociações.

Nesta altura está bastante claro que o venezuelano Chávez, e não Lula, está se tornando pólo de referência continental. Apesar do apoio de Lula na campanha, as afinidades eletivas de Morales são com a Venezuela e com Cuba. Chávez e Morales têm fustigado os governos da Colômbia e do Peru por seus acordos com os EUA, abrindo uma crise na Comunidade Andina. A integração entre esta comunidade e o Mercosul é a base da Comunidade Sul-americana de Nações lançada por Lula. Ollanta Humala, candidato peruano com grandes chances de vitória, igualmente nacionalista, é outro pupilo de Chávez.

Ao governo não resta outra opção senão a firme defesa dos interesses brasileiros. Mesmo reconhecendo a soberania da Bolívia sobre seus recursos minerais, a nota do governo informou que recorrerá aos foros internacionais. A política externa parece ter entrado no cardápio eleitoral, mas isso é bom. Afinal, ela também diz respeito a cada um dos brasileiros.