Título: Governo: não há risco de racionamento de gás
Autor: Luiza Damé e Monica Tavares
Fonte: O Globo, 03/05/2006, Economia, p. 25
Petrobras e Lula asseguram que Bolívia se comprometeu a não interromper fornecimento do produto ao Brasil
BRASÍLIA e LA PAZ. A principal preocupação do governo ontem foi tranqüilizar a população quanto ao risco de um racionamento de gás natural no Brasil, que importa da Bolívia 52% do que consome. Depois de receber dos bolivianos a garantia de que o fornecimento não será interrompido, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, informou a Luiz Inácio Lula da Silva que ¿não há qualquer risco de desabastecimento no Brasil¿. A mesma garantia foi dado pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, a Lula. Além disso, a exportação de gás para o Brasil é fundamental para a economia da Bolívia, o que afastaria a possibilidade de cortes.
Segundo o porta-voz da Presidência da República, André Singer, Gabrielli disse que a Petrobras tem como manter normalmente a distribuição e, por isso, consumidores e empresas não têm com o que se preocupar. Singer disse ainda que o decreto da Bolívia não prevê interrupção de abastecimento. O Brasil importa cerca de 26 milhões de metros cúbicos de gás da Bolívia diariamente, usados principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
O contrato entre os dois países é de 30 milhões de metros cúbicos ao dia até 2019. Para técnicos do governo, não haverá problemas de aumento dos preços do gás ¿ o grande temor do setor produtivo ontem.
¿ Eles têm de vender para o Brasil. Não há interesse para a Bolívia e não é razoável trabalhar com a hipótese de corte de fornecimento ¿ disse um importante interlocutor de Lula.
Analista ressalta que Bolívia precisa vender seu gás
O ministro da Defesa boliviano, Walker San Miguel, afirmou ontem que a ocupação militar das instalações petrolíferas vai garantir que o país cumpra suas exportações de gás natural. Ainda assim, os bolivianos correram para os postos na noite de segunda-feira, formando longas filas. As rádios noticiaram alguns casos de desabastecimento interno, especialmente em postos da Petrobras. Mas, segundo funcionários da empresa, os estoques acabaram devido ao fim de semana prolongado.
Afonso Henriques, ex-secretário do Ministério de Minas e Energia e ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), também acredita que, mesmo perdendo dinheiro, a Petrobras não vai suspender o abastecimento porque segue uma política de governo. O risco, afirma, é uma reação popular na Bolívia, se a Petrobras e o Brasil endurecerem nas negociações.
¿- A questão mais grave é um levante popular ¿ disse Henriques. ¿ Da parte da Petrobras não tem risco, mesmo que os ativos sejam ocupados. Mas virou um carnaval, invadiram as unidades processadoras de gás e podem parar com o transporte do produto.
Henriques atribuiu a falta de informação preliminar sobre o que a Bolívia iria fazer à desorganização da política internacional do governo Lula.
O consultor Luiz Horta, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), também acredita que não haverá interrupções no abastecimento, pois a Bolívia precisa vender mais do que o Brasil comprar. Ele disse que, a longo prazo, o Brasil tem alternativas até para substituir o gás, e o que há hoje é um processo passageiro:
¿ Foram bravatas do governo boliviano que não levam a nada.
COLABOROU Eliane Oliveira, com agências internacionais