Título: Reforma agrária boliviana começará pelos latifúndios de famílias ricas
Autor: Chico Otavio
Fonte: O Globo, 07/05/2006, Economia, p. 36
Dirigente do partido de Morales diz que decisão não vai esperar Constituinte em julho
LA PAZ. A reforma agrária prometida pelo presidente Evo Morales deverá, num primeiro momento, atingir propriedades bolivianas. Dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Morales, em Santa Cruz de La Sierra, o vereador Oswaldo Chato Peredo afirmou que o alvo inicial do governo é uma lista de 14 latifúndios improdutivos da região, alguns deles mantidos por famílias que já ocuparam importantes cargos públicos. Sobre a situação dos brasileiros, Chato generaliza:
¿ A reforma só atingirá as terras improdutivas ou os proprietários em situação ilegal. Quem não estiver na situação acima não tem o que temer.
O vereador tem sido um dos interlocutores dos brasileiros no debate sobre o futuro de seus negócios na Bolívia. Chato Peredo, um ex-guerrilheiro que combateu ao lado de Che Guevara no interior boliviano, assegurou que a reforma agrária de Evo Morales não vai esperar pela Constituinte prevista para julho próximo:
¿ As primeiras medidas vão sair já nos próximos dias.
Brasileiros em áreas de fronteira são denunciados
Como a nacionalização das reservas de gás, a redistribuição das terras férteis da Bolívia e de áreas florestais foi promessa de campanha de Morales. O MAS diz que a reforma vai eliminar terras improdutivas e garantir alimentos para as futuras gerações de bolivianos.
O governo mantém segredo sobre o que fará no campo. Há poucos dias, o MAS denunciou que há proprietários de terras brasileiros no lado boliviano da fronteira com o Brasil, o que é vetado pela Constituição. Se comprovada a denúncia, esses brasileiros dificilmente manterão a posse de suas terras.
Mas a situação mais preocupante diz respeito aos brasileiros legalmente constituídos, radicados há cerca de dez anos na Bolívia. O pior quadro será a expropriação pura e simples das terras. Isso, contudo, teria um preço alto demais nas já desgastadas relações com o Brasil. O segundo cenário é o estabelecimento de um limite de terras para estrangeiros na Bolívia, o que atingiria os grandes produtores de soja brasileiros. O terceiro cenário seria a elevação dos impostos sobre o uso da terra, hipótese considerada quase certa pelos brasileiros.
Chato Peredo garante que as mudanças, ao contrário do que se imagina, trarão benefícios para as terras produtivas, como o acesso ao crédito. Ele disse ainda que o governo boliviano negocia com o Brasil a abertura de uma fábrica de equipamentos agrícolas em Santa Cruz.