Título: DEPUTADO CITADO NA MÁFIA DAS AMBULÂNCIAS PRESIDE SESSÃO
Autor: Maria Lima
Fonte: O Globo, 09/05/2006, O País, p. 13

Nilton Capixaba, cuja senha foi dada por assessor para Vedoin entrar no site da Saúde, substituiu Aldo Rebelo

BRASÍLIA.O deputado federal Nilton Capixaba (PTB-RO), um dos parlamentares que ficou em situação mais delicada nas investigações da Polícia Federal sobre a máfia das ambulâncias, presidiu ontem à tarde, durante mais de uma hora, a sessão ordinária da Câmara na ausência do presidente da Casa, Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Com a senha exclusiva de Capixaba, um assessor dele, Francisco Machado, que está preso, permitiu que o chefe da quadrilha, o empresário Luiz Antônio Vedoin, tivesse acesso ao site do Fundo Nacional de Saúde.

Capixaba, que é segundo-secretário da Câmara, permaneceu sentado no lugar da presidência da Mesa falando todo o tempo ao celular enquanto parlamentares se revezavam na tribuna. O assessor de Capixaba é o mesmo que chegou a discutir a possibilidade de matar um jornalista que investigava as fraudes na compra de ambulâncias.

Deputado presidiu a sessão para escapar da imprensa

O deputado assumiu a presidência da sessão para não falar com jornalistas. Quando chegou ao plenário, a sessão era presidida pelo deputado Luiz Couto (PT-PB). Assim que os jornalistas começaram a pedir que ele descesse da Mesa para se explicar, Capixaba desalojou Couto e lá ficou, mostrando irritação com os flashes. O deputado petista foi para a tribuna e defendeu que os parlamentares acusados de integrar a máfia das ambulâncias dêem resposta às denúncias.

Capixaba saiu do plenário pelo elevador privativo e foi embora. Nem comentou a decisão de Aldo Rebelo ontem de enviar para a Corregedoria a lista com o nome dos 64 deputados citados no relatório da PF, entre eles o seu nome. De nada adiantou a romaria de deputados que, apenas citados em conversas, queriam que Aldo retirasse seus nomes da relação. A lista foi enviada à Câmara pelo juiz Jefferson Schneider, da Justiça Federal de Mato Grosso.

Agora, caberá ao corregedor Ciro Nogueira (PP-PI), junto com a Mesa, decidir quem será investigado ou não. Os três membros da Mesa que constam da lista ¿ João Caldas (PL-AL), Eduardo Gomes (PSDB-TO) e Capixaba ¿ terão voto na decisão sobre o destino da investigação da Corregedoria.

¿ O regimento determina o envio do documento ao corregedor que tem a atribuição, pela Mesa Diretora, para adotar as providências que julgar cabíveis ¿ disse Aldo, explicando que não pode afastar os integrantes da Mesa acusados de envolvimento com o caso.

O líder do PP, Mário Negromonte (BA), que aparece nas conversas gravadas só com a lembrança de que é o novo líder do partido, tentou um salvo-conduto. Mas o presidente da Câmara disse que o documento só será fornecido após sindicância da Corregedoria, que vai separar quem está diretamente envolvido, ou através de seus assessores, dos que são apenas citados sem implicações. Negromonte ficou revoltado:

¿ É um equívoco total do Aldo! É um absurdo.

Na mesma situação estão os deputados Rodrigo Maia (PFL-RJ), Eduardo Paes (PSDB-RJ) e Denise Frossard (PPS-RJ), citados nas gravações como parlamentares com os quais a quadrilha não conseguiria atuar. Maia está revoltado, mas acha que Aldo não tinha outro caminho. Denise enviou a Aldo uma carta pedindo que cancele todas as suas emendas, desde 2003.

¿ Encaminhar todos os nomes não é o melhor caminho. A PF misturou vítimas com culpados. Quando se faz essa mistura, é estratégia para não punir ninguém, é para não dar em nada ¿ disse Maia.

¿ Mandei cancelar minhas emendas, mesmo porque nunca tive uma liberada. Quem libera é o governo, que tem lá dentro uma quadrilha para manipulá-las ¿ disse a deputada.