Título: De volta ao velho petróleo
Autor: Ramona Ordoñez
Fonte: O Globo, 09/05/2006, Economia, p. 23
Se Bolívia aumentar preço, gás natural ficará mais caro que óleo combustível para indústria
Ogás natural importado da Bolívia ficará mais caro do que o óleo combustível, um de seus principais substitutos na indústria, caso o país vizinho aumente os preços em US$2 por milhão de BTUs (medida internacional do gás) e esse reajuste seja repassado ao consumidor. Os cálculos são do especialista Edmar Fagundes Almeida, do Grupo de Economia da Energia da UFRJ. Segundo ele, o gás ficaria em torno de US$2,30 por milhão de BTUs mais caro do que o óleo.
O diretor de Gás e Energia da Petrobras, Ildo Sauer, afirmou que os preços do gás da Bolívia já estão no limite da competitividade e que, em alguns casos, o produto já deixou de ser atrativo. O executivo reafirmou que a Petrobras não aceitará aumentos e que, se for preciso, recorrerá à arbitragem internacional.
¿ O preço do gás boliviano está no limite. Já tem indústrias de papel e celulose no Paraná, por exemplo, que estão querendo trocar o gás natural por outros combustíveis, como a lenha e o carvão ¿ disse Sauer, ao lembrar que os consumidores já pagam um preço razoável pelo gás, que tem custos elevados de distribuição.
Consumidor paga até US$35 em SP
Hoje o gás da Bolívia chega às distribuidoras brasileiras por US$5,50 por milhão de BTUs (incluindo o valor do transporte). Já o preço de venda do gás pelas distribuidoras aos consumidores finais é bem superior, por incluir as margens de lucro e, principalmente, os custos das redes de distribuição ¿ que, segundo especialistas, são elevados. Os consumidores em São Paulo chegam a pagar US$35 por milhão de BTUs.
Almeida fez uma simulação de preços do gás boliviano para a indústria de São Paulo ¿ o Rio é totalmente abastecido pela Bacia de Campos. O gás da Bolívia após o reajuste ficaria mais caro do que o óleo combustível, mesmo com a disparada dos preços do petróleo no mercado internacional nos últimos meses, que tem elevado também os custos dos derivados. O economista ressalva que hoje as indústrias de São Paulo estão proibidas de usar óleo combustível, por questões ambientais.
Segundo ele, uma indústria que consome dez mil metros cúbicos por dia de gás paga hoje em torno de US$12 por milhão de BTUs. Se o gás vendido pela Bolívia ficar US$2 mais caro ¿ como ameaça o presidente Evo Morales ¿ e houver repasse para o consumidor ¿ o presidente Lula vem descartando isso ¿ essa indústria passará a pagar cerca de US$14,30 por milhão de BTUs. Se essa mesma indústria usar um óleo combustível do tipo leve, gastará cerca de US$12 por milhão de BTUs (convertendo o óleo combustível para a mesma unidade do gás).
¿ Se o gás natural aumentar de preço, vai perder a competitividade ¿ disse Almeida.
O especialista Adriano Pires Rodrigues calcula que o aumento dos preços do gás boliviano causaria um reajuste de cerca de 33% nos preços para as distribuidoras ¿ também caso a Petrobras não absorva um novo preço. Isso poderia gerar um aumento de cerca de 26% para o gás natural veicular (GNV), e de 6% para os consumidores residenciais de até 20 metros cúbicos por mês. As indústrias que usam até mil metros cúbicos por mês pagariam 9% a mais, aumento que seria de 21% no caso das indústrias que consomem acima de um milhão de metros cúbicos por mês.
Um eventual reajuste de 61% no preço do gás da Bolívia não traria impactos na inflação brasileira, dizem economistas, porque o peso do produto nos índices ainda é muito pequeno. Elson Teles, da Concórdia, disse que o gás residencial tem peso de apenas 0,1% no IPCA, e somente a partir do segundo semestre o IBGE vai considerar o GNV na apuração:
¿ Mesmo com um aumento de 6% no gás residencial, o impacto será desprezível.
COLABOROU Fabiana Ribeiro