Título: MANIFESTO ALERTOU SOBRE `FÁBRICA DE MONSTROS¿
Autor: Chico Otavio
Fonte: O Globo, 16/05/2006, O País, p. 16
Na primeira rebelião, facção avisou que seus integrantes queriam descontar na sociedade o que passaram
Há cinco anos, um manifesto público atribuído à maior facção criminosa de São Paulo, divulgado para denunciar as condições do anexo do Centro de Reabilitação Penitenciária de Taubaté, alertava sobre as as intenções de seus integrantes: ¿O anexo é uma fábrica de monstros, que saem de lá revoltados, deformados e arrasados, querendo descontar tudo o que passaram ali na sociedade¿. O texto, produzido durante as rebeliões de fevereiro de 2001, era uma espécie de aviso prévio sobre a onda de terror que a cidade enfrentaria dali em diante.
Embora a facção criminosa tenha surgido na primeira metade dos anos 90, suas ações só assustaram São Paulo a partir das rebeliões daquele ano, quando a ¿fábrica de monstros¿ começou a produzir os primeiros resultados. As ações, que surpreenderam a cidade, envolveram mais de 27 mil detentos, paralisaram 24 presídios do estado e fizeram 13 mil reféns, alguns parentes dos próprios presos.
Centrais clandestinas organizam as rebeliões
Desde o início, três características marcam as ações da facção: seus líderes, espalhados pelos presídios paulistas, usam telefones celulares, incluindo centrais clandestinas, para organizar as rebeliões (só em maio de 2001, a polícia descobriu 12 centrais telefônicas clandestinas usadas pelo grupo); suas ações são sempre a favor de prisioneiros de alta periculosidade, com histórico de distúrbios em outras penitenciárias, e seus métodos de cobrança de taxas dos associados não respeitam limites.
A organização, que seria comandada por Marcos Wilian Herbas Camacho, o Marcola, conta com chefes espalhados por várias unidades do sistema prisional do Estado de São Paulo. Em 2001, as rebeliões simultâneas em presídios paulistas foram comandadas por Idemir Carlos Ambrósio, o Sombra, que morreria cinco meses depois, espancado por cinco membros da facção numa luta interna. Em seguida, a facção passou a ser liderada por Geleião e Cesinha, que acabaram depostos da liderança em novembro de 2002, quando o grupo foi assumido pelo atual líder da organização, o Marcola.
Morte de juiz na lista dos crimes atribuídos à facção
Além de motins e rebeliões, a lista de crimes a ela associados envolve também a morte do juiz-corregedor de Presidente Prudente, Antônio José Machado Dias, executado com três tiros no dia 14 de março de 2003. Antônio José era juiz-corregedor de sete presídios na região de Presidente Prudente, no interior do Estado de São Paulo. Cabia a ele decidir sobre benefícios e pedidos de advogados dos presos.
O tamanho da organização é desconhecido pelas autoridades públicas paulistas, mas aposta-se numa cúpula com cerca de 30 integrantes e dois mil membros mais atuantes, além de dez mil simpatizantes. A facção estaria ainda assumindo o controle de favelas em São Paulo, onde manteria abrigos para fugitivos e cativeiros para suas vítimas.
A facção matou pelo menos cem pessoas nos últimos dois anos. Para conseguir dinheiro para financiar o grupo, seus membros exigem que os os sócios paguem uma taxa mensal de R$50, se estiverem detidos, e de R$500, se estiverem em liberdade.
O dinheiro é usado para comprar armas e drogas, além de financiar ações de resgate de presos ligados ao grupo.
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