Título: PETROBRAS ACEITA RECEBER EM GÁS POR AÇÕES
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Fonte: O Globo, 17/05/2006, Economia, p. 27

Governo boliviano levantou a hipótese. Estatal pode parar o refino no país vizinho

BRASÍLIA, RIO e PORTO ALEGRE. O diretor da Área Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, admitiu que a estatal pode aceitar ser indenizada com gás natural pela nacionalização de suas refinarias na Bolívia. A proposta já fora levantada pelo governo boliviano. A empresa, disse ele, só não admite a hipótese de não ser indenizada pela transferência das ações de suas duas refinarias.

¿ O gás é dinheiro, assim como qualquer outro combustível, se tivermos mercado. Não temos nada contra ¿ afirmou Cerveró.

Já o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, informou, em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores do Senado, que a companhia pode deixar as atividades de refino na Bolívia, devido à mudança na legislação boliviana. Se a nova gestão dos negócios não for compatível com os padrões da Petrobras, a estatal poderá vender 100% de sua participação.

Quando a crise do gás estourou, Gabrielli já havia informado a suspensão de novos investimentos da Petrobras no país. Ele prestou ainda esclarecimentos em audiência conjunta a cinco comissões da Câmara dos Deputados ontem. Gabrielli argumentou que, embora a Bolívia reconheça o pagamento pela transferência de ações, é importante saber o que vai acontecer, por exemplo, com a gestão dos negócios pelos novos diretores bolivianos (que serão maioria), com as relações de trabalho e as políticas de segurança e de meio ambiente:

¿ A depender das negociações, podemos até analisar a possibilidade de estarmos ausentes do refino boliviano, se não nos interessar enquanto empresa.

Gabrielli explicou que há três pontos em negociação com a Bolívia: o aumento da tributação, de 50% para 82%, sobre a produção; o preço do gás natural e as refinarias que produzem outros combustíveis.

¿ Não há a possibilidade de um aumento do preço do gás com o qual não concordemos ¿ disse ele.

Deixando claro que não acredita em corte do fornecimento de gás natural boliviano, Gabrielli disse que a Petrobras tem sempre um plano para situações emergenciais. Neste caso, prevê a redução do uso de gás pela Petrobras, a substituição por óleo combustível e GLP (gás de botijão), a aceleração da produção nacional, alternativas na área de biocombustível e a construção de usinas de gás natural liquefeito (GNL).

Para ele, o corte está praticamente descartado porque, para que a Bolívia possa obter os outros combustíveis, é necessário o uso do gás natural ¿ que é produzido junto com o petróleo. Sem mercado para o gás ¿ o Brasil é praticamente o único comprador ¿ o restante da cadeia fica inviabilizado. Gabrielli garantiu que, ao contrário das afirmações feitas pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, de que Petrobras atuaria ilegalmente, a estatal obedece à Constituição boliviana.

Em Porto Alegre, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, informou que em três a quatro anos a Petrobras poderá garantir a independência na área do gás natural, com investimentos na costa brasileira. O detalhamento do plano será feito na quinta-feira:

¿ O governo tem perfeita clareza de que o pilar de nossa segurança energética é a diversidade. Serão adotadas medidas em relação a biodiesel e outros biocombustíveis.

(*) Do Globo Online