Título: BOLSA FAMÍLIA REDUZ DESIGUALDADE, DIZ ESTUDO
Autor: Martha Beck
Fonte: O Globo, 18/05/2006, Economia, p. 35

Segundo Ipea, programa é eficiente. Banco Mundial recomenda mais gastos em projetos que transferem renda

BRASÍLIA. Programas de transferência de renda como o Bolsa Família estão entre os principais responsáveis pela redução da desigualdade no Brasil na última década. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 1995 e 2004 esses programas foram responsáveis por 25% da queda na diferença entre ricos e pobres no país.

De acordo com o pesquisador do Ipea Sergei Soares, apesar de o Brasil ainda ser o país mais desigual de toda a América Latina, os resultados do programa de transferência de renda mostram que ele é eficiente.

Essa também é a avaliação do Banco Mundial, que divulgou ontem o estudo ¿Redução da Pobreza e Crescimento: Círculos Virtuosos e Viciosos¿, no qual recomenda que os países da América Latina gastem mais recursos destinados à população mais pobre com programas condicionantes, e menos recursos em aposentadorias e pensões.

¿ A transformação do Estado num agente que promova a igualdade de oportunidades e pratique uma redistribuição eficiente da renda talvez seja o principal desafio enfrentado pela América Latina na implementação de melhores políticas que, ao mesmo tempo, estimulem o crescimento e reduzam a desigualdade e a pobreza ¿ afirmou um dos autores do estudo do Banco Mundial, Humberto Lopez.

Aumento da pobreza reduz crescimento e investimentos

O documento também destaca a importância do crescimento econômico no combate à pobreza e à desigualdade. Segundo os dados do trabalho, um aumento de 10% nos níveis de pobreza pode reduzir o crescimento de um país da região em 1% do PIB e os investimentos em até 8% do PIB.

Além disso, qualquer pequeno aumento na desigualdade teria que ser compensado por um crescimento significativo da economia para evitar uma elevação dos níveis de pobreza. No Brasil, por exemplo, um aumento de um ponto percentual na desigualdade demandaria uma alta de 2,3% do PIB para manter os níveis de pobreza constantes. Já em países mais pobres, porém menos desiguais, o esforço seria um pouco menor. No Peru, por exemplo, seria necessária uma elevação de 1,6% do PIB, enquanto no Equador ela seria de 1,1%.

Brasil precisa investir em educação, diz estudo

De acordo com o documento do Banco Mundial, além de continuar apostando no Bolsa Família, o Brasil precisa investir em educação como uma estratégia de redução da pobreza e da desigualdade. Segundo o estudo, é preciso expandir a cobertura do ensino médio e universitário, além de estimular o investimento em infra-estrutura, com o objetivo de beneficiar as regiões menos desenvolvidas do país e ampliar o acesso dos pobres aos serviços públicos.

¿ Muitas famílias de baixa renda têm poucos incentivos para investir em educação, especialmente no nível médio. A alta insegurança no mercado de trabalho e os baixos retornos para a educação de nível médio desestimulam quem tem menos perspectivas de seguir até a universidade ¿ disse William Maloney, que também participou da elaboração do documento do Banco Mundial.