Título: Itaguaí pode incluir Brasil na rota de grandes navios de carga industrial
Autor: Luciana Rodrigues e Mariza Louven
Fonte: O Globo, 21/05/2006, Economia, p. 34

Porto é o único do Atlântico Sul com águas profundas e abrigadas

A instalação de grandes projetos industriais às margens da Baía de Sepetiba chama a atenção para a geografia privilegiada do Porto de Itaguaí, hoje subaproveitado devido a entraves logísticos e pressões políticas. Os especialistas explicam que o porto é o único do Atlântico Sul capaz de se tornar um grande concentrador de cargas industriais, incluindo o Brasil nas rotas internacionais de comércio mais valiosas, hoje restritas ao Hemisfério Norte.

¿ A vinda de novas indústrias pode apressar os investimentos em infra-estrutura necessários para a expansão do porto ¿ diz Ednei Oliveira, presidente do Condeports, entidade que reúne associações empresariais, universidades e prefeituras da área de influência do porto. ¿ No Brasil, só funciona assim, a necessidade vem primeiro e depois a solução ¿ completa.

Os gargalos estão no acesso rodoviário e ferroviário. Hoje, o porto movimenta carvão, minério de ferro e alumina, e tem ainda um terminal de contêineres (carga industrial). Segundo o ex-ministro Raphael de Almeida Magalhães, seu potencial é mesmo para produtos industriais. Com águas profundas e abrigadas pela baía, o porto pode receber os gigantescos navios porta-contêineres que hoje fazem o comércio com a Ásia. A localização é privilegiada: num raio de 500 quilômetros de Itaguaí, concentra-se 70% do PIB brasileiro.

Porto terá investimentos de R$569 milhões

Pedro Elia, pesquisador da Coppe, destaca que o Brasil paga US$6 bilhões por ano em frete internacional, quantia que seria drasticamente reduzida com um porto concentrador, aumentando a competitividade da indústria brasileira.

Hoje, a movimentação de cargas não chega a ocupar 35% da área do complexo portuário. E mesmo com o porto concentrador ainda distante de se tornar realidade, Itaguaí já viu suas operações com carga industrial crescerem 910% nos últimos três anos. Para 2006 a expectativa é de um aumento de mais 30%, segundo o presidente da Companhia Docas, Antônio Carlos Soares. Além disso, as empresas que operam os outros terminais planejam investir R$569 milhões no porto.

A Vale do Rio Doce quer adaptar seu terminal de minério de ferro para começar a exportar, ano que vem, um milhão de toneladas de grãos, principalmente soja. O investimento é de R$100 milhões.

¿ No futuro, poderemos chegar a sete milhões de toneladas por ano. Mas, para isso, será preciso resolver a questão do acesso ferroviário ao porto ¿ afirma Cláudio Loureiro, diretor da Companhia Portuária da Baía de Sepetiba, empresa do grupo Vale.

Por enquanto, a soja do Centro-Oeste chegará a Barra Mansa por trem, pela malha da FCA (ferrovia da Vale) e, de lá, irá de caminhão até Itaguaí.

As diversas obras de expansão no porto estão movimentando o mercado de trabalho local. Efrem Francisco Raposo, encarregado da Paranasa, informa que a empresa está com cerca de 300 operários no local, parte deles recrutada na cidade. Roberto Freitas é um dos que estava parado há três meses, mas conseguiu serviço nas obras na subestação de energia do terminal de carvão da CSN.

¿ É difícil conseguir emprego na cidade, mas no porto tem surgido muita vaga ¿ disse.