Título: Mantega completa equipe da Fazenda com perfis pró-crescimento econômico
Autor: Regina Alvarez e Martha Beck
Fonte: O Globo, 23/05/2006, Economia, p. 28
Escolha de economista crítico da política do BC sugere novo rumo da pasta
BRASÍLIA. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, completou ontem sua equipe, ao anunciar o economista Júlio Sergio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), para o comando da Secretaria de Política Econômica (SPE), e outros dois nomes de sua confiança como titulares da Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae) e da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). A chegada de Almeida é mais um sinal de que Mantega, há menos de dois meses no cargo, está imprimindo sua marca na condução da política econômica.
Almeida ¿ que já esteve no governo entre 1985 e 1987 ¿ é um crítico contundente da condução das políticas monetária e cambial desenvolvidas pelo Banco Central (BC) e um defensor ardoroso do crescimento. Mantega procurou minimizar as críticas de seu novo colaborador ao BC, aos juros altos e ao câmbio valorizado, afirmando que no governo ele trabalhará afinado com a equipe econômica:
¿ Fora do governo há certa liberdade. Na equipe econômica trabalhamos juntos. Remamos todos na mesma direção.
Para a PGFN, Mantega convidou o secretário-executivo adjunto do Ministério do Planejamento, Luiz Inácio Adams, e para a Seae, o secretário-adjunto Marcelo Saintive.
Ministro lidera debate sobre câmbio, juros e orçamento
No dia-a-dia, todos na equipe remam na direção que Mantega indica, o que poderá levar o BC a uma posição de isolamento. O ministro interferiu diretamente na decisão sobre os cortes no Orçamento de 2006. Sob sua orientação, a Receita Federal e os técnicos recalcularam para cima em R$12,4 bilhões a previsão de arrecadação para o ano, incluindo as receitas administradas e ganhos com dividendos das estatais. Com isso, o governo abriu espaço para mais gastos no ano eleitoral e cortes menores no Orçamento.
Mantega também está à frente das discussões para medidas na área cambial, que pretendem frear a queda do dólar em relação ao real, reduzindo os prejuízos de setores estratégicos, como o agrícola. Na gestão de Antonio Palocci, o governo vinha fazendo vista grossa para a desvalorização do dólar, de olho na queda da inflação, mas a pressão dos setores exportadores aumentou e Mantega decidiu encampar algumas das medidas propostas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O ministro disse que o secretário de Política Econômica vai participar das discussões sobre o câmbio, uma das áreas que Almeida discutia à frente do Iedi. Em relação ao assunto, Almeida declarou recentemente que qualquer medida será paliativa sem a queda substancial dos juros. Ele acha que o BC é conservador e que não permite que a economia cresça, com medo da inflação.
O economista tem uma origem híbrida, já que é professor da Unicamp, mas muito ligado ao setor produtivo. Tem também ligações estreitas com Mantega e já atuou como colaborador informal do ministro durante a gestão dele no Planejamento. Em 2004, participou de um grupo encarregado de avaliar as perspectivas para o crescimento.
Ministro diz que volatilidade atual é passageira
Almeida deve mergulhar de cabeça em todos as discussões consideradas estratégicas na Fazenda. Ontem mesmo, pouco depois de chegar a Brasília para assumir o cargo, participou de uma reunião sobre o pacote para a agricultura que sai quinta-feira.
Ao anunciar as mudanças, Mantega aproveitou para tranqüilizar os mercados. Afirmou que o Brasil está preparado para enfrentar as turbulências.
¿ Antigamente, uma volatilidade dessas poderia ser um pesadelo para o Brasil e provocar fuga de capitais. Mas nada disso está acontecendo. Até porque temos pouco capital especulativo, nem é motivo para saída de dólar. Estamos tranqüilos em relação ao que está acontecendo, considero que é uma volatilidade momentânea.