Título: PRESSÃO NO CÂMBIO
Autor: Patricia Eloy
Fonte: O Globo, 25/05/2006, Economia, p. 27

Dólar tem maior alta desde 2002 com saída de investidores estrangeiros do país

Nervosismo, especulação e a saída maciça de investidores estrangeiros do Brasil fizeram o dólar subir pelo quarto dia consecutivo e voltar aos R$2,40, registrando também a maior alta percentual desde a crise com as eleições presidenciais de 2002. Investidores locais que apostavam numa queda do dólar decidiram comprar moeda numa tentativa de reduzir perdas. Já estrangeiros venderam papéis do governo e, com os reais recebidos, compraram dólares e bateram em retirada do mercado. Com isso, a moeda americana subiu ontem 4,71%, voltando aos R$2,40, patamar de preços que não era visto desde 26 de agosto do ano passado. A alta de ontem foi a maior desde 24 de setembro de 2002, quando o dólar avançou 5,88% em relação ao real.

O motivo para o movimento é o temor de que os juros dos Estados Unidos subam mais fortemente, como indicou o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). A alta tende a gerar fuga de mercados emergentes, considerados mais arriscados, pressionando, assim, o dólar e derrubando a Bolsa.

Bolsa perde mais de R$2 bi em dez dias

Nos demais mercados, o dia foi menos agitado. O risco-país recuou 1,4%, para 281 pontos centesimais, e o Global 40, título brasileiro mais negociado no exterior, subiu 0,78%, para 122,4% do valor de face. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu 0,88%.

Entre os dias 11 e 21 deste mês, período em que a crise nos mercados se intensificou, R$2,067 bilhões em ações que estavam antes nas mãos de estrangeiros deixaram a Bolsa e ajudaram a pressionar a cotação do dólar. No acumulado do mês até o dia 20, o saldo estrangeiro está negativo na Bolsa em R$907,7 milhões.

Ontem, diante da falta de compradores por causa do cenário adverso, o Tesouro Nacional recomprou 1,5 milhão de títulos atrelados à inflação - NTN-Bs - com vencimento entre 2009 e 2024, num total de R$1,753 bilhão. Mais da metade destes papéis em circulação no mercado estava nas mãos de estrangeiros.

- Ao venderem estes títulos, os estrangeiros usaram os reais recebidos para comprar dólares e sair do país, o que pressionou ainda mais a taxa de câmbio, fazendo disparar as cotações. E, amanhã (hoje), o Tesouro retoma as compras destes papéis, ou seja, deve haver mais pressão à vista - alerta Alexandre Póvoa, diretor da Modal Asset Management.

E os investidores pagaram caro para deixar o mercado. Póvoa diz que uma NTN-B com vencimento em 2010, que era negociada a 10,5% ao ano no mercado no início da semana, foi vendida ontem ao governo por pouco mais de 11% ao ano, ou seja, o Tesouro aceitou os papéis de volta, mas a um custo bem mais alto. Logo depois, o Tesouro cancelou os leilões tradicionais de títulos prefixados (LTNs e NTN-Fs) que estavam previstos para hoje devido às recentes turbulências.

O nervosismo fez também as taxas projetadas no mercado futuro de juros dispararem na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), num movimento que não era visto há anos pelos operadores. Nos contratos mais negociados, com vencimento em janeiro de 2008, os juros saltaram de 15,48% para 16,65% ao ano.

- Venderam os títulos a qualquer preço, o que fez as taxas projetadas saltarem no mercado. Antes, todo mundo apostava numa queda do juro. Quando o dólar começou a subir e o mercado, a cogitar uma possível redução no ritmo de corte de juros no Brasil, dispararam as ordens de venda de títulos - explica Carlos Cintra, gestor de Renda Fixa do Banco Prosper.

Os temores de fuga de mercados emergentes já fazem com que alguns economistas estimem que o Banco Central (BC) pode interromper os cortes na taxa básica de juros, a Selic, atualmente de 15,75% ao ano. Hugo Penteado, economista-chefe do ABN Amro Asset, avalia que, se o câmbio ficar entre R$2,40 e R$2,50 até o fim do mês, existe a chance de o BC fazer uma pausa nas quedas. As últimas três reduções foram de 0,75 ponto. Outros esperam queda de 0,5 ou 0,25 ponto percentual.

INCLUI QUADRO: O COMPORTAMENTO DA MOEDA