Título: NO BRASIL, A GENTE TEM TUDO E AO MESMO TEMPO NÃO TEM NADA¿
Autor: Soraya Aggege
Fonte: O Globo, 28/05/2006, O País, p. 8

Você se considera parte da minoria branca citada pelo governador Cláudio Lembo?

ANDRÉ SKAF: No Brasil, a gente não pode generalizar em nenhum aspecto. Os problemas são mais sérios do que culpar uma simples elite. É necessário mudar as diretrizes do governo, porque a educação não está sendo valorizada. O investimento no setor educacional nos próximos 15 anos é essencial para podermos sair da situação em que estamos metidos. A História do Brasil é muito curta, são apenas 500 anos, temos de viver mais coisas para saber como agir.

Você é filho do presidente da entidade que virou emblema de riqueza no Brasil. De onde surgiu sua consciência?

ANDRÉ: Hoje a Fiesp tem uma consciência totalmente diferente. Atualmente temos lá um grupo de jovens montado para participar ativamente das questões sociais. Para nós ganharmos, terá de ser em conjunto, ajudando quem está do mesmo lado. Tive a oportunidade de conhecer favelas do Rio e de São Paulo, além de presídios, e constatei: ou a gente começa a fazer coisas mais sérias e consistentes, ou sequer viraremos um país. O Brasil não tem guerras nem conflitos étnicos, mas sim um povo animado, festas e comidas maravilhosas. A gente tem tudo e ao mesmo tempo não tem nada.

Como você chegou às favelas?

ANDRÉ: O (José) Júnior, do AfroReggae, sugeriu que eu conhecesse uma favela. No Rio, visitei Acari, Cantagalo, Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade de Deus e parte do Complexo do Alemão, além do bairro do Capão Redondo, em São Paulo.

Você não teve medo?

ANDRÉ: Não posso aceitar viver num país que me obrigue a ter medo de pessoas ou situações. O risco maior é de deixar essas coisas de lado, até não podermos andar de um lugar para outro. Mas realmente alguns amigos se admiram.

Seu carro é blindado?

ANDRÉ: Não, de jeito nenhum. Quanto custa isso? R$30 mil, R$40 mil. Melhor investir em 20, 30 crianças. O retorno é mais compensador. Sou um dos investidores do grupo que sustenta a Fábrica de Criatividade, escola no Capão Redondo, e apóio o AfroReggae em logística, captação de recursos e formatação de parcerias. Prefiro esse caminho.