Título: O QUE FALTA AOS LATINOS
Autor: JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES
Fonte: O Globo, 27/05/2006, Opinião, p. 7

A América Latina é há muito o continente da esperança. Mas seus problemas na verdade se agudizaram nas últimas décadas, não obstante os grandes passos recentes em uma direção democrática.

O modelo de desenvolvimento de nossos países desde os anos trinta implicou a substituição de importações, em uma segunda etapa de bens de consumo duráveis, avançando para o setor de bens de capital e infra-estrutura com grande dificuldade. A balança de pagamentos desses países continuou a ser pressionada pela importação de bens de capital e intermediários. A crise que explodiu em 1973 e as transformações globais que se seguiram puseram a pá de cal no modelo. Para avançar seria preciso: 1. fortalecer o mercado interno para as massas, dando outro sentido à substituição de importações; 2. exportar mais produtos de maior valor agregado; e, tarefa nova e difícil, 3. acompanhar o salto tecnológico da informática e da microeletrônica.

Todavia, apesar do necessário controle da inflação, os dilemas anteriores foram basicamente reformulados. Os problemas da balança de pagamentos persistiram - minorados pela liquidez internacional e uma provavelmente temporária melhoria nos termos de intercâmbio para commodities, enquanto o "desenvolvimento" (muito baixo para padrões internacionais) se faz em grande medida pela agroindústria (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia) ou pela indústria "maquiladora" (México), que tem efeito muito limitado sobre o conjunto da economia, com insumos importados de alto valor agregado. Nem se ampliou o mercado interno (além do mais o desemprego, inclusive "estrutural", é forte), nem se investe a sério em pesquisa & desenvolvimento, ciência & tecnologia. Observe-se que o modelo do Chile, país econômica e socialmente bastante simples, atrasado tecnologicamente, não serve à maioria dos países latino-americanos, mais complexos e possuidores de menos vantagens naturais comparativas (exceção feita ao petróleo e à coca...). E que o crescimento argentino parte hoje de um patamar muito baixo devido a sua crise recente.

O debate sobre esses temas é ainda incipiente entre nós, obscurecidas aquelas três questões, sobretudo em sua interconexão, pela hegemonia do capital financeiro, o neoliberalismo e nostalgias de um desenvolvimento ao estilo dos anos cinqüenta. Mas é preciso realizá-lo. Três décadas de desenvolvimento estancado da América Latina deveriam servir definitivamente como motivação para mudanças rumo a um novo modelo de desenvolvimento, mais democrático e que nos permita uma inserção menos frágil e menos subordinada no novo capitalismo global

O governo Lula de fato avançou no que toca à ciência & tecnologia, mas ainda limitadamente. Tratou a ampliação do mercado interno via sobretudo a expansão do crédito e do Bolsa Família (com os investimentos em infra-estrutura emperrados no desvão das parcerias público-privadas); seus esforços para deslanchar entre nós a microeletrônica e a informática mantiveram-se tímidos. Vale notar também que, embora a inovação tenha se tornado ponto de pauta importante de boa parte das discussões sobre a economia brasileira, ao menos em círculos especializados, não está claro se novos canais institucionais de relação com a sociedade estão a ser criados que ajudem a impulsionar um novo modelo de desenvolvimento.

Os atuais projetos de integração do subcontinente têm também de avançar nessa direção, implicando parcerias e investimentos conjuntos nessas áreas, que demandam grandes somas e capacidades técnico-científicas avançadas, para além da miragem dos recursos do petróleo e do gás. Somente assim as demandas de cidadania e participação, liberdade e bem-estar das populações de nossos países, serão efetivamente respondidas e sustentáveis no longo prazo.

JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES é diretor-executivo do Instituto Universitário de Pesquisas e Estudos do Rio de Janeiro (Iuperj).

A integração tem de avançar para além da miragem dos recursos do petróleo e do gás