Título: `Quem se interessa por democracia no Peru?¿
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 04/06/2006, O Mundo, p. 42
Sociólogo afirma que pesquisas refletem fissura social do país e que fenômeno do crescimento de Humala é alarmante
LIMA. Na visão do sociólogo peruano Julio Cotler, um dos intelectuais mais respeitados do país, a disputa que ocorre hoje entre o ex-presidente Alan García e o líder nacionalista Ollanta Humala pela Presidência reflete a profunda fragmentação social que existe no Peru. ¿Humala representa uma grande advertência para todos, ele despertou a consciência de alguns setores sobre a desigualdade social¿, explicou Cotler, que atua como diretor do Instituto de Estudos Peruanos e é autor de livros como ¿Classes, Estado e Nação no Peru¿ (uma espécie de bíblia dos sociólogos locais), em entrevista ao GLOBO.
Alan García governou o Peru entre 1985 e 1990, na época um país em guerra contra o terrorismo e mergulhado na hiperinflação. Como se explica que seja o favorito nesta eleição?
JULIO COTLER: Sim, é verdade, em seu governo o Peru era cenário dos ataques da guerrilha do Sendero Luminoso, era um país onde o narcotráfico era muito poderoso e também tínhamos a hiperinflação, que destruiu nossa sociedade. Muitos sindicatos desapareceram, a classe média foi arruinada, foi muito traumático. Por isso as pessoas buscaram um salvador e elegeram Alberto Fujimori como presidente. As pessoas queriam uma salvação e do outro lado estava Mario Vargas Llosa, que prometia ajuste econômico, privatizações, enfim, o modelo neoliberal. Parece incrível, mas na época Alan García fez campanha contra Vargas Llosa. O ex-presidente dizia que um eventual governo de Vargas Llosa provocaria um clima de violência no país. Já Fujimori dizia que não haveria ajuste, que resolveria os problemas dos pobres, que em seu governo haveria consenso e assim conseguiu os votos da esquerda. Era uma aliança contra o neoliberalismo. Bom, hoje temos 30% de humalistas e 25% de apristas. Mas a questão é que se formou uma frente anti-Humala que favoreceu a candidatura de García.
Apesar das suspeitas de corrupção em seu governo e do fantasma da hiperinflação...
COTLER: Claro, a corrupção é sistêmica no Peru. Aqui todo mundo sabe e aceita que os políticos roubam. Senão como você explicaria que a filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000) tenha sido a candidata mais votada nas eleições legislativas? Quem se interessa pela democracia no Peru? Os pobres querem assistência. Fujimori viajava todos os dias ao interior do país, chegou a lugares onde ninguém chegou. Não interessam as denúncias de violação dos direitos humanos, muitas pessoas até afirmam que quem morreu tinha motivos para ser assassinado.
A democracia peruana está em crise?
COTLER: Uma planta que nunca cresceu não pode estar morrendo.
Muitos peruanos votam em García simplesmente porque querem votar contra o candidato nacionalista?
COTLER: Claro. Agora, o mais interessante é que esta eleição reflete as profundas fissuras sociais do Peru. Onde ganha Humala, em que setores? Nos setores mais explorados, mais pauperizados. Setores étnicos, moradores das serras peruanas e do sul do país. O litoral e a capital (regiões mais ricas) votam em Alan García. E a esquerda está acabando. Dizem que mais importante do que a mensagem é o mensageiro. Eu digo que o mensageiro é a mensagem.
E quais são as mensagens dos dois candidatos?
COTLER: Humala desperta euforia nos setores populares, ele representa o povão, é militar, corre, é jovem, tem uma jovem mulher. Para os mais pobres o Estado significa Forças Armadas e polícia. O problema da pobreza é muito importante, mas eu costumo falar também na questão dos humilhados e ofendidos, setores ressentidos pelo forte racismo que existe no país. Eles se sentem representados por Humala. O fenômeno Humala representa uma grande advertência para todos, ele despertou a consciência de alguns setores sobre a desigualdade social. Os eleitores de García são os apristas clássicos e os eleitores anti-Humala. Uma eventual vitória de García seria uma vitória dos setores urbanos mais modernos.
Caso Humala seja derrotado por García, o que deve acontecer com o humalismo?
COTLER: Eu não ficaria surpreso se dentro de cinco anos, nas próximas eleições presidenciais, o humalismo vencesse com 60% dos votos, como Evo Morales na Bolívia. Humala despertou a consciência dos mulatos, dos negros, como Chávez fez na Venezuela.
Fala-se muito no crescimento do populismo na região. Mas o populismo sempre esteve presente no Peru, por exemplo, com Fujimori...
COTLER: Sim, claro, sempre tivemos massas populares excluídas que na década de 80 votaram na esquerda, depois em Fujimori e agora em Humala.