Título: Manobras contra a Justiça
Autor: Flávio Freire e Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 06/06/2006, O País, p. 3
Advogados de Suzane e dos Cravinhos adiam julgamento; promotor fala em `dia do deboche¿
Mnobras dos advogados de defesa provocaram ontem adiamento do julgamento de Suzane von Richthofen e dos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, que confessaram ter executado a pauladas dos pais dela, Marísia e Manfred von Richthofen, em outubro de 2002. O novo julgamento foi marcado para 17 de julho. Com isso, Suzane garante por mais um mês e meio o benefício da prisão domiciliar. Os irmãos Cravinhos voltaram ontem para o Centro de Detenção Provisória de Pinheiros (CDP). Suzane deixou o Fórum e foi para o prédio onde funciona o escritório de seus advogados, na Vila Mariana.
Os advogados dos Cravinhos não compareceram e os de Suzane abandonaram o tribunal. As manobras dos advogados foram criticadas pelo juiz e pelos promotores.
¿ Suzane não está algemada, mas esta presidência ficou algemada, pois não pôde conduzir os trabalhos com independência ¿ disse o juiz Alberto Anderson Filho, do 1º Tribunal do Júri.
A promotoria também reclamou:
¿ Infelizmente, assistimos a um gesto deplorável por parte da defesa da Suzane. Esses advogados já vieram para cá com a intenção de evitar o julgamento. O que aconteceu aqui foi uma homenagem ao deboche. Posso sugerir que se crie hoje o dia nacional do deboche ¿ disse o promotor Roberto Tardelli.
O advogado Geraldo Jabur, que defende os irmãos Cravinhos, nem sequer compareceu ao plenário do 1º Tribunal do Júri. Jabur alegou que não tivera permissão para visitar seus clientes enquanto eles estavam na Penitenciária de Itirapina, no interior do estado. A cadeia foi uma das 73 onde houve rebeliões durante os ataques do crime organizado nos dias 13 e 14 de maio e ficou interditada por dez dias. Diante da ausência do advogado, o juiz adiou o julgamento dos Cravinhos para o dia 17 de julho.
Horas depois, a defesa de Suzane abandonou o plenário. O motivo alegado foi a ausência da testemunha Cláudia Sorge, que está na Alemanha e foi amiga da mãe da ré. Depois de quase duas horas de tumulto, o juiz remarcou o julgamento de Suzane também para o dia 17.
Usando uniformes de presos ¿ calças amarelas, blusas de moletom brancas e chinelos ¿ os Cravinhos chegaram algemados ao plenário. Confirmaram os nomes dos advogados e não aceitaram a sugestão para que outro advogado fosse constituído.
¿ Não conseguimos receber a visita dele nos últimos dias ¿ disse Cristian ao juiz.
Cristian e Daniel foram levados de volta para o CDP de Pinheiros. Suzane ficou na sala de audiência. Durante o tempo de uma hora e 15 minutos em que ficaram sentados lado a lado, ela não olhou nem cumprimentou Cristian ou Daniel e virou o rosto nas duas vezes em que eles passaram na frente. Suzane, que não estava algemada e não vestia uniforme ¿ usava jeans, sapatos de camurça e blusa de lã amarela ¿ permaneceu cabisbaixa, apenas com o seu ombro encostado ao do ex-namorado Daniel. Nas mãos, ela segurava um terço. Quando o juiz anunciou que o julgamento seria desmembrado, ela olhou para os advogados e sorriu.
Adiamento pode dar mais vantagens a Suzane
O advogado Jabur disse que não iria ao Fórum porque não concordava com o que classificou de cerceamento da defesa:
¿ Tenho nota do pedágio, da gasolina e o nome do agente que não permitiu que eu entrasse no presídio. Os advogados da Suzane falam na TV que estavam com ela para ensaiar. Por que essa distinção? Por que ela é rica e eles, pobres? ¿ disse Jabur, antes do início do julgamento.
A Secretaria de Administração Penitenciária confirmou que o advogado esteve na penitenciária e foi impedido de entrar, mas teve outros dez dias para se encontrar com os clientes.
Para ele, seus clientes devem ser condenados, ¿na proporcionalidade da conduta deles¿.
Para evitar a repetição da manobra, o juiz designou o advogado Thiago Marinho como defensor público de Suzane, caso os advogados dela voltem a abandonar o julgamento.
Além da prisão domiciliar, Suzane tem outras vantagens com o adiamento. Até o dia 17 de julho, o Superior Tribunal de Justiça pode ter julgado duas ações impetradas por sua defesa: uma pedindo a proibição da exibição em plenário da reportagem do ¿Fantástico¿, na qual o advogado Mário Sérgio de Oliveira é flagrado orientando Suzane a mentir, e outra pedindo que o julgamento seja transferido para Ribeirão Preto.
Os Cravinhos podem ser beneficiados, já que seus advogados pedem a extensão dos benefícios concedidos a Suzane. O juiz aceitou um pedido da defesa de Suzane para que o local da prisão domiciliar fosse transferido do apartamento de três quartos no Morumbi de seu ex-tutor Demivaldo Barni para endereço sigiloso.