Título: EUA MATAM `PRÍNCIPE DA AL-QAEDA¿
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Fonte: O Globo, 09/06/2006, O Mundo, p. 37
Bush admite que morte do líder terrorista Zarqawi não põe fim à violência no Iraque
BAGDÁ
Foram anos de perseguição que terminaram com o lançamento de duas bombas de 227 quilos por dois caças F-16 Falcon americanos sobre uma casa perto da cidade de Baquba. O ataque matou o terrorista mais procurado no Iraque: o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, conhecido por sua crueldade e responsabilizado por muitos dos mais violentos atentados no país em conflito, onde o líder terrorista Osama bin Laden o considerava ¿o príncipe da al-Qaeda¿. Para o presidente George W. Bush, foi uma vitória importante numa guerra em que coleciona derrotas e que fez sua popularidade desmoronar. Mas o próprio Bush admitiu que o fim de Zarqawi não significa o fim da violência no Iraque.
A morte do terrorista de 39 anos que ficou conhecido por decapitar pessoalmente reféns seqüestrados aconteceu quarta-feira, mas só foi divulgada ontem, o que refletiu o cuidado da Casa Branca com a confirmação de um dos fatos mais importantes para os EUA no Iraque desde a captura do ex-ditador Saddam Hussein, em 2003. Nos últimos anos, as forças americanas divulgaram equivocadamente algumas vezes que Zarqawi podia ter morrido numa ação militar ou que escapara por pouco.
Os EUA ofereciam US$25 milhões pela captura de Zarqawi, mas o Departamento de Estado americano e o FBI (polícia federal) disseram não ter identificado qualquer pessoa que poderia receber a recompensa. As forças americanas afirmaram que o localizaram graças à traição de alguém dentro da própria al-Qaeda. Bush disse que sua morte representa ¿um sério golpe para a al-Qaeda¿ e uma vitória na guerra contra o terrorismo, mas evitou o triunfalismo:
¿ Zarqawi está morto, mas a difícil e necessária missão no Iraque continua. Podemos esperar que os terroristas e insurgentes continuem sem ele e que a violência sectária continue. Mas a ideologia do terror perdeu um de seus líderes mais visíveis e agressivos ¿ afirmou.
O presidente lembrou de Zarqawi como o autor de atentados como o que atingiu a sede da ONU em Bagdá, matando 22 pessoas, entre elas o brasileiro Sergio Vieira de Mello, chefe da missão das Nações Unidas no Iraque.
O sunita Zarqawi foi identificado por suas feições faciais, impressões digitais, tatuagens e cicatrizes. Um exame de DNA seria ainda realizado. À imprensa foram apresentadas fotos de seu cadáver com o rosto barbado e marcas de ferimentos. Prometendo continuar sua luta, a al-Qaeda confirmou a morte de seu príncipe, recentemente visto num vídeo em que disparava uma metralhadora no deserto. Num site islâmico, seguidores dele disseram: ¿A morte de nossos líderes apenas nos torna mais determinados a continuar a jihad (guerra santa).¿
Segundo o major-general William Caldwell, porta-voz das forças americanas, foram semanas de preparação para o ataque, que contou com forças iraquianas e se valeu de pistas de iraquianos e serviços secretos jordanianos.
¿ Foi realmente uma longa, cuidadosa e deliberada utilização de inteligência, reunião de informações, recursos humanos e eletrônicos ¿ afirmou o militar.
Zarqawi foi encontrado, disse Caldwell, graças a informações sobre seu mentor espiritual, o xeque Abdul-Rahman, também morto no ataque.
¿ Alguém dentro da rede de Zarqawi nos chamou a atenção sobre ele (Rahman) ¿ disse o porta-voz, sem identificar a fonte.
Ao amanhecer de quarta-feira, as bombas atingiram em cheio o esconderijo do terrorista, uma pequena casa numa área de bosque. Além de Zarqawi e seu consultor espiritual, morreram no ataque mais quatro pessoas não identificadas, entre elas uma mulher ¿ que seria uma das três esposas do terrorista ¿ e uma criança.
Depois da morte de Zarqawi, foram realizadas simultaneamente 17 buscas em lugares de Bagdá sob suspeita de abrigarem seu aliados, e que levaram a ¿informações valiosas¿, disse Caldwell. Segundo ele, o egípcio Abu al-Masari, que treinou no Afeganistão e estabeleceu a primeira célula da al-Qaeda em Bagdá, deverá substituir Zarqawi na liderança no Iraque.
¿ Nos últimos anos ninguém no planeta teve mais sangue de homens, mulheres e crianças inocentes nas mãos do que Zarqawi. Ele personificava uma visão medieval sádica, obscura ¿ comentou o secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld.
Para alguns árabes, Zarqawi foi um herói. Para outros, sua morte fez justiça às vítimas civis de seus ataques, muito mais numerosas que as vítimas civis das tropas estrangeiras no Iraque. O grupo Hamas, que lidera o governo palestino, lamentou a morte de Zarqawi, que fez cair o preço do petróleo. Apenas uma hora depois de o premier iraquiano, Nuri al-Maliki, anunciar sob aplausos o fim do líder terrorista, um bomba explodiu num mercado em Bagdá matando 15 pessoas. Um total de 35 pessoas morreram ontem na capital em ataques desse tipo. Pondo fim a semanas de impasse, o Parlamento iraquiano aprovou os novos ministros de Defesa e Interior, respectivamente o general Abdul Qadr Mohammed Jassim (condenado por Saddam a sete anos de prisão) e o engenheiro Jawad Kadem al-Bolani.
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