Título: A CONSTRUÇÃO DE UM MITO
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Fonte: O Globo, 09/06/2006, O Mundo, p. 38
Erros dos EUA fortaleceram poder de terrorista
WASHINGTON. O mito de Abu Musab al-Zarqawi começou através de uma mentira. Ela foi dita em 2003 pelo então secretário de Estado, Colin Powell, ao Conselho de Segurança da ONU. Ele afirmou, num tom de revelação, que Zarqawi era o elo vivo entre o partido Baath, de Saddam Hussein, e a al-Qaeda.
Segundo Powell, a ligação justificava uma ação militar preventiva, pois era prova de que o Iraque se transformara em refúgio da rede terrorista. Como se viu depois, isso não era verdade. Apesar disso, a afirmação de Powell fez com que, da noite para o dia, um mero delinqüente da Jordânia ¿ com passagens pela cadeia por posse de drogas e crimes sexuais ¿ se tornasse o terrorista mais procurado do mundo, depois de Bin Laden.
O presidente George W. Bush ajudou a destacá-lo como celebridade ao colocar a cabeça de Zarqawi a prêmio: US$25 milhões, vivo ou morto. E o próprio Bin Laden, a quem mais interessava deixar de ser o centro das atenções, encarregou-se de fortalecer o mito, referindo-se a Zarqawi ¿ num dos seus famosos comunicados ¿ como ¿o príncipe da al-Qaeda no Iraque¿.
A fama de Zarqawi criada por tais lances de marketing viria a se consolidar com três grandes atentados atribuídos a seu grupo: ataques múltiplos a xiitas numa mesquita em Basra, no Iraque, em 2004; ataques a bomba a trens em Madri, no mesmo ano: e outro em Amã, na Jordânia, em fins de 2005.
O Pentágono sempre o apontou ¿ se não como comandante direto ao menos como inspirador ¿ como responsável por vários ataques a patrulhas americanas no Iraque. Recentemente surgiu um vídeo com um dado irônico: mostrava que Zarqawi mal conseguia disparar uma metralhadora, durante treinamento. Ele sequer sabia como segurar a arma.