Título: UM TERRORISTA OBSCURO DA ESCOLA DE BIN LADEN
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Fonte: O Globo, 09/06/2006, O Mundo, p. 38

Face mais sanguinária da insurgência, Zarqawi liderou afegãos apoiados por Washington em guerra contra soviéticos

BAGDÁ. Abu Musab al-Zarqawi era uma figura obscura, mas popular por ser associada a violentos atentados, assassinatos e decapitação de reféns estrangeiros. Nascido na aldeia jordaniana de Zarqa ¿ origem de seu nome ¿ surgiu no Iraque como líder do grupo insurgente Tawhid e Jihad, que no fim de 2004 se uniu à al-Qaeda. A maior parte das informações sobre ele se restringe ao que seus inimigos e aliados disseram.

Para muitos analistas, Zarqawi usou a insurgência iraquiana como trampolim para expandir suas operações. Assim como Osama bin Laden, divulgou algumas fitas de áudio pedindo apoio e desafiando os EUA e seus aliados. ¿Amem a morte assim como amam a vida¿, disse numa das gravações. Mas só foi visto sem disfarces num vídeo divulgado menos de dois meses atrás. Num outro, fora identificado como o terrorista mascarado que aparecia decapitando reféns com uma faca.

Na juventude, um criminoso insignificante e irritadiço

Tanto Bin Laden como Zarqawi ganharam popularidade liderando combatentes afegãos apoiados pelos EUA na luta contra a ocupação soviética, nos anos 80. Mas não faltam especulações de que os dois seriam na verdade rivais. Para Zarqawi, a imagem de combatente é distante daquela que tinha na juventude, quando era Ahmad Fadil al-Khalayleh (seu nome verdadeiro), um criminoso insignificante, irritadiço e com pouca formação escolar.

Depois da derrota dos soviéticos, Zarqawi voltou à Jordânia, em 1992, com uma agenda islâmica radical. Passou sete anos presos em seu país, acusado de conspirar para derrubar a monarquia e estabelecer um califado islâmico. Ao ser libertado, fugiu do país. Na Jordânia acabaria sendo condenado à morte à revelia quatro vezes, por ataques a turistas americanos e israelenses.

Zarqawi teria ido para a Europa e em seguida voltado ao Afeganistão para estabelecer um campo de treinamento. Ali, estudantes aprenderam não só técnicas militares como se tornaram especialistas em produção e uso de gases venenosos. Durante esse período ele teria se aproximado da al-Qaeda.

Acredita-se que depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA e da subseqüente guerra no Afeganistão, Zarqawi tenha ido para o Iraque. Um míssil americano teria atingido sua base no Afeganistão. No Iraque, ele se tornou mais ativo depois da invasão americana, em 2003, sendo responsabilizado por muitos dos mais violentos atentados no país. Num deles, naquele ano, em Najaf, morreram mais de 85 pessoas, entre elas um clérigo xiita.

Em 2004, os americanos divulgaram uma carta que sustentava a tese de que a principal estratégia do sunita Zarqawi no Iraque era atacar xiitas no centro do país. Seus planos seriam insuflar o conflito sectário para minar a presença americana. Dias depois de divulgada a carta, atentados a bomba em centros de recrutamento de forças iraquianas mataram quase cem pessoas. Mas o conflito sectário só explodiu no país em fevereiro deste ano, com um violento atentado contra uma mesquita xiita em Samarra.