Título: EU TE ENSINO A FAZER RENDA PARA VOCÊ ME PAGAR
Autor: Flávia Oliveira
Fonte: O Globo, 11/06/2006, Economia, p. 28

A velha canção de roda reformulada é a síntese da nova ação social das empresas que levam energia ao interior

RIO e PINTADAS, Bahia. Já não se trata de dar o peixe. Tampouco de ensinar a pescar. Ação social que se preze, hoje em dia, também ajuda a limpar, cortar e vender o pescado. Pelo menos, no setor elétrico. É apoiando empreendimentos de uso intensivo de energia ¿ e que gerem renda para as contas de luz serem pagas em dia ¿ que as concessionárias estão encurtando a distância entre o alto investimento e o baixo retorno financeiro das metas de universalização do acesso à eletricidade em áreas rurais Brasil afora. A idéia, que nasceu no interior do Rio em 2003 na forma de uma cooperativa de leite em São Fidélis, acaba de ser reproduzida na Bahia e promete se espalhar por outros cinco estados (São Paulo, Mato Grosso, Paraíba, Minas Gerais e Acre) nos próximos meses.

Segunda-feira passada, dia 5, parte dos 11 mil habitantes de Pintadas (cidade encravada no semi-árido baiano, a 260 quilômetros de Salvador) acompanhou a inauguração do centro comunitário de produção (CCP), resultado da parceria entre Coelba, distribuidora local, Eletrobrás e a prefeitura local. O município, que tem na pecuária uma de suas principais atividades econômicas, ganhou uma instalação com dois tanques de resfriamento de leite que, funcionando desde o primeiro dia do mês, já proporcionaram um acréscimo de mais de 30% no preço do produto.

Programas estimulam consumo ligado à produção

A venda em conjunto e o beneficiamento do leite na Cooperativa Agroindustrial de Pintadas (Coap) permitiram aos 40 pequenos produtores embolsar os R$0,07 a R$0,10 por litro que ficavam com os atravessadores. Segundo o secretário municipal de Agricultura, Enadson Oliveira, até a criação da cooperativa, os pecuaristas vendiam o leite in natura por R$0,25 a R$0,27 por litro, enquanto os intermediários, encarregados da filtragem, do resfriamento e do transporte, revendiam à indústria de laticínios cada litro por R$0,33 a R$0,34.

Nereide Segala Coelho, gaúcha de Passo Fundo que chegou a Pintadas 20 anos atrás, aderiu ao empreendimento. Ela é dona de três vacas ¿ a primeira comprada por influência do filho Genilson, de 10 anos, que foi sorteado num consórcio ¿ e, por dia, repassa à cooperativa dez litros de leite. Descontados os R$0,03 por litro destinados à manutenção da Coap, a produção agora rende R$0,50 a mais por dia, além da garantia de pagamento quinzenal. Antes, Nereide chegava a esperar três meses para receber.

¿ Por mês, são R$15 a mais que vamos ganhar. Pode parecer pouco, mas é o valor que pago pela energia da minha casa ¿ diz a produtora.

A frase resume o ponto que diferencia os CCPs das clássicas ações de responsabilidade social. Mais que financiar programas de inclusão que favorecem a imagem das companhias, esse tipo de cooperativa contribui para a formação e a expansão da demanda por energia elétrica no interior no Brasil, como salienta Mabele Rose Vieira Thomé, chefe da Divisão de Projetos Complementares do Programa Luz para Todos, da Eletrobrás:

¿ Quando deu início à eletrificação rural, a empresa descobriu numa pesquisa que os novos clientes não tinham a intenção de usar a energia para fins produtivos. Isso nos preocupou, porque o acesso à energia traria uma despesa adicional aos domicílios sem qualquer contrapartida na renda.

A combinação adversa resultaria em aumento da inadimplência. Ou pior: na migração para o campo de um fenômeno comum nos centros urbanos, o roubo de energia, também chamado de ¿gato¿. A estatal buscou inspiração no programa Casa de Máquinas, lançado pela distribuidora Cemig (MG) em 1992, que estimulava a formação de cooperativas para beneficiar a produção de pequenos proprietários rurais incapazes de processá-las individualmente. Em uma década, foram instaladas 205 empreendimentos.

¿ É uma forma de transformar o mercado rural, que sempre foi muito mal remunerado. Por isso, os empreendimentos têm de usar a energia elétrica para beneficiar matérias-primas. As concessionárias ganham consumidores ¿ completa Mabele.

O pontapé inicial do programa foi dado no Rio de Janeiro, com a abertura do CCP Boa Esperança, em São Fidélis, há dois anos e meio. Resultado de uma parceria entre a Ampla (distribuidora do interior do estado) e a Eletrobrás, a cooperativa, na origem, reunia 15 produtores de leite. Hoje, tem quase 40, produção média de 52,7 mil litros por mês, receita bruta mensal de R$28.632 e consumo de energia na faixa de mil KWh, segundo a Ampla. O sucesso é tão grande, que a Boa Esperança já inspirou outros três empreendimentos semelhantes na região, sem qualquer apoio estatal ou privado.

Em Mato Grosso, mais 30 projetos nos próximos anos

Reproduções dos CCPs também estão se espalhando pelo país. Nos próximos meses, serão inaugurados em parceria com a Elektra e a Ampla, respectivamente, os de Ribeira (SP), voltado à produção de rapadura, e de Santa Maria Madalena (RJ), de farinha de mandioca. A paraibana Saelpa e a Eletroacre têm projetos em andamento na Eletrobrás. Na Bahia, além da cooperativa de Pintadas, a Coelba está patrocinando empreendimentos em seis outros municípios. A empresa tem a maior meta de eletrificação rural de todo o país: 357 mil domicílios até 2008.

¿ A Coelba não pode exportar para China ou Índia. Nosso negócio é a Bahia. Por isso, temos de ajudar as comunidades a crescer, para que elas consumam mais energia, paguem em dia suas contas e nos permitam investir mais ¿ diz Moisés Sales, presidente da distribuidora.

No Mato Grosso, onde 80 mil lares rurais deverão ter acesso à energia até 2008, a Cemat espera inaugurar em dois meses o CCP no assentamento de Santana do Taquaral, a cem quilômetros de Cuiabá. A unidade de produção de farinha de mandioca vai reunir 35 produtores e beneficiar uma centena de famílias. Outros 30 projetos entrarão em operação nos próximos dois anos, informa Robson Slompo, assistente da Diretoria de Planejamento e Projetos Especiais.

(*) Flávia Oliveira e Simone Marinho viajaram à Bahia a convite da Coelba, da Eletrobrás e do Pnud.