Título: O NOVO ROSTO DA TRAGÉDIA DE UM POVO
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Fonte: O Globo, 14/06/2006, O Mundo, p. 31
Menina que perdeu a família em explosão vira símbolo do drama palestino
JERUSALÉM. A praia é um dos poucos lugares que crianças da Faixa de Gaza ¿ um lugar sem praças ou cinemas ¿ podem desfrutar. Huda, de 11 anos, estava na sexta-feira na areia de uma delas com toda a família. Mas por volta das 17h, uma explosão supostamente causada por um projétil israelense arruinou sua curta vida. Tomou-lhe o pai, Ali Ghaliya, um agricultor de 49 anos. Chamando por ele, ela gritava ¿pai, pai, pai¿, enquanto corria ao redor de seu cadáver, numa imagem que percorreu o mundo e se tornou símbolo das muitas tragédias cotidianas dos palestinos.
Huda perdeu também as irmãs mais velhas Alia, de 25 anos, e Ilam, de 15; as pequenas Sabren, 4, e Hanadi, 1; a segunda esposa do pai, Raisa, 35; e Haitam, o bebê que o casal tivera há quatro meses. Só Huda e um dos irmãos saíram ilesos. A mãe, Hamdia, quatro irmãos entre 8 e 22 anos, e a meia-irmã, de 8, foram levados ao hospital. Outras 30 pessoas ficaram feridas.
¿ Achávamos que era uma praia tranqüila ¿ disse Huda.
Mas na sexta-feira, a região foi bombardeada por terra, mar e ar. De repente, ouviu-se um barulho ensurdecedor e caiu um projétil, conta Aiham, e depois outro:
¿ Todo mundo começou a correr, mas minha família não se organizou rapidamente o bastante. Um projétil nos acertou em cheio. Eu me levantei e não podia acreditar. Uma de minhas irmãs havia perdido um braço. Meu pai estava morto.
Milhares de pessoas foram ao funeral.
¿ Não me deixem só ¿ implorou a menina ao se despedir da família.
A imagem ficou gravada na mente dos palestinos, da mesma forma que não se esquecem de Mohamed al-Durra, o menino de 12 anos que morreu nos braços do pai, no início da intifada. Desde 2000, morreram 704 palestinos menores de idade.
Huda conseguiu colocar de acordo momentaneamente o presidente Mahmoud Abbas e o primeiro-ministro Ismail Haniyeh: ambos adotaram simbolicamente a menina, que agora mora com uma tia.
¿ Ela fala uma linguagem internacional. Seu sofrimento é entendido da mesma forma em Espanha, Palestina ou Índia ¿ diz Shandi al-Kashif, redator-chefe da agência Ramatan, cujo câmera fez as imagens.