Título: ATAQUE DE ISRAEL MATA 11 PALESTINOS E FERE 42
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Fonte: O Globo, 14/06/2006, O Mundo, p. 31
Governo nega responsabilidade por morte de civis em praia. Ex-especialista do Pentágono contesta investigação
CIDADE DE GAZA. Um ataque aéreo israelense matou ontem 11 palestinos, nove deles civis, na Faixa de Gaza, na mais letal ação do gênero em aproximadamente quatro anos. Mais de 40 pessoas ficaram feridas no episódio, definido pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, como ¿terrorismo de Estado¿.
O ataque ocorreu dias depois da morte de sete civis palestinos numa praia de Gaza, num episódio no qual Israel negou ontem responsabilidade.
O bombardeio de ontem indicou que Israel não pretende suspender ataques em áreas densamente povoadas, apesar das críticas internacionais à morte de civis.
¿ Vínhamos demonstrando contenção devido às críticas causadas pelo incidente na praia de Gaza, mas não mais ¿ disse o ministro da Defesa, Amir Peretz.
Carro levaria foguetes a serem disparados contra Israel
O ataque de ontem tinha como alvo um carro perto de Jabaliya. Nele estavam três membros da Jihad Islâmica: dois morreram e o terceiro ficou ferido. Instantes depois, outro míssil foi lançado e atingiu o local quando curiosos e socorristas se aproximavam do carro ¿ o que elevou o número de vítimas. Entre os nove civis mortos estavam três médicos e duas crianças: uma de 4 anos e outra de 8. Outras 42 pessoas ficaram feridas.
¿ O que Israel fez se chama terrorismo de Estado. Isto não nos enfraquecerá ¿ declarou Abbas. ¿ Esta escalada mostra que os israelenses querem se livrar de nosso povo.
Segundo o Exército israelense, o veículo transportava foguetes Katyusha ¿ com alcance maior do que os Qassam ¿ e lançadores que seriam usados contra Israel. ¿Hoje nós dissemos adeus a nossos mártires e amanhã Israel dirá adeus a seus mortos¿, reagiu a Jihad Islâmica num comunicado em que prometeu vingança.
Desde a morte de sete civis palestinos na praia na sexta-feira ¿ a maioria deles membros de uma família que fazia piquenique ¿ grupos palestinos já dispararam mais de cem foguetes contra Israel.
Ontem, acompanhado por militares, o ministro da Defesa apresentou o resultado das investigações sobre o episódio. Segundo o general Meir Califi, responsável pelas investigações, as chances de disparos da artilharia terem alcançado a área eram nulas. Fontes militares israelenses apontaram como a causa provável da morte de civis a explosão de uma mina palestina na areia.
Para militares, mina pode ter causado explosão na praia
Segundo a investigação israelense, cinco projéteis caíram a 250 metros da praia, e a explosão que atingiu os civis ocorreu oito minutos após o disparo do sexto, que se desviou. Além disso, a análise dos estilhaços que atingiram os sobreviventes, atendidos em hospitais israelenses, não eram compatíveis com armamento israelense, disseram os militares. A comissão investigadora observou ainda filmes e fotos do local, a partir dos quais afirmou que as crateras parecem ter sido produzidas de baixo para cima, como ocorreria em caso de mina, em vez de ser de cima para baixo.
O serviço de inteligência acusa o Hamas de minar áreas das praias na Faixa de Gaza para dificultar o desembarque de soldados israelenses. Para o grupo palestino, as declarações israelenses foram uma ¿tentativa de escapar da responsabilidade moral pelo massacre de uma família inocente¿.
Os resultados, no entanto, foram contestados por um ex-especialista do Pentágono, que investigou o local da explosão. ¿Todas as provas apontam para um 155mm¿ da artilharia terrestre israelense, afirmou Mark Garlasco.
Garlasco, que trabalhou em zonas de guerra, incluindo Kosovo e Iraque, pediu uma investigação independente após concluir que os fragmentos de projéteis, o tamanho e distribuição das crateras abertas na areia e o tipo de ferimentos causados tornam mais provável que tenham sido resultado de um ataque israelense. O especialista, analista da organização Human Rights Watch, trabalhou para o Departamento de Defesa americano por sete anos.
¿ Naturalmente não posso ser conclusivo, mas todas as provas apontam para um projétil israelense de 155mm que matou os palestinos na praia ¿ disse Garlasco.
Ele descartou a possibilidade de ter sido um disparo de navio, como apontado a princípio, mas disse que o tipo de dano é compatível com os tanques M-109, usados regularmente por Israel.
No fim do dia, tropas israelenses mataram a tiros Mohammed al-Wash, um integrante das Brigadas dos Mártires de al-Aqsa de 26 anos, em Jenin, na Cisjordânia.