Título: DÍVIDA INTERNA FICA ABAIXO DE R$1 TRI EM MAIO POR CAUSA DE TURBULÊNCIAS
Autor: Martha Beck
Fonte: O Globo, 15/06/2006, Economia, p. 20

Governo fez resgate líquido de títulos públicos no valor de R$17,4 bilhões

BRASÍLIA. A volatilidade do mercado financeiro provocou uma queda de 0,4% na dívida mobiliária federal interna (em títulos públicos) em maio. O estoque voltou a ficar abaixo de R$1 trilhão e fechou o mês em R$999,1 bilhões. Segundo o Tesouro Nacional, a turbulência obrigou o governo a fazer um resgate líquido elevado de títulos ¿ R$17,4 bilhões ¿ além de reduzir o volume e o prazo de novas emissões.

¿ A volatilidade (que começou no fim de março) continuou acentuada em maio, o que provocou um resgate líquido alto e algo que não acontecia há algum tempo: leilões de compra e venda de NTN-B ¿ disse o coordenador da dívida pública, Ronnie Tavares.

As NTN-Bs são títulos corrigidos pelo IPCA que costumam ser comprados por investidores estrangeiros. O problema é que a volatilidade no mercado ¿ provocada pela perspectiva de nova alta de juros nos EUA, o que pode provocar a saída de investimentos de mercados emergentes ¿ elevou as taxas de remuneração exigidas pelos investidores para comprar papéis brasileiros.

¿ Na segunda quinzena de maio, houve um início de aumento das taxas de NTN-Bs. Por isso, fizemos leilões de compra e venda. Eles dão parâmetros ao mercado sobre essa taxas, além de gerar liquidez ¿ disse Tavares.

A última vez em que o Tesouro fez leilões de papéis para dar parâmetros ao mercado por causa de turbulência foi em abril de 2004. As compras líquidas de papéis feitas nos leilões de NTN-B em maio chegaram a R$1,65 bilhão.

Tavares também admitiu que o governo teve que usar o chamado colchão de liquidez ¿ reserva de recursos que o governo tem para resgatar títulos durante um prazo de até cinco meses ¿ para fazer os resgates. Ele, no entanto, não quis comentar o quanto foi utilizado, disse apenas que o colchão está confortável.

Para Jason Vieira, economista da consultoria GRC Visão, apesar de a volatilidade ter ajudado a reduzir o estoque da dívida, isso não representa uma melhora na imagem do Brasil para os investidores:

¿ A queda não foi um resultado de uma melhora na qualidade da dívida pública. Foi apenas um fator técnico. Não dá para levantar bandeirinhas e comemorar.

A volatilidade também diminuiu o apetite dos investidores estrangeiros por novos títulos brasileiros. Segundo Tavares, entre abril e maio esses aplicadores compraram R$1,3 bilhão das vendas do Tesouro em leilões primários. Entre fevereiro e maio, as compras foram de R$8,4 bilhões.

¿ A volatilidade reduziu os investimentos em mercados emergentes ¿ explicou ele.

Isenção de imposto elevou compras no início do ano

Tavares lembrou, no entanto, que no início do ano havia uma grande demanda dos estrangeiros por papéis brasileiros, diante da perspectiva de anúncio da medida provisória (MP) 281, que isentou do pagamento de Imposto de Renda as compras de títulos públicos federais. Quando a MP foi anunciada, havia uma demanda represada, o que elevou as compras.

Entre fevereiro e abril, os estrangeiros compraram R$9,7 bilhões em leilões primários de títulos. Ficaram com 6% do total de papéis prefixados emitidos pelo Tesouro e com 35% das NTN-Bs.