Título: SÓ 20% DAS MULHERES SE PREVINEM CONTRA O CÂNCER DE ÚTERO NO BRASIL
Autor: Roberta Jansen
Fonte: O Globo, 15/06/2006, O Mundo, p. 26
Vacina poderia reduzir significativamente o número anual de novos casos
A primeira vacina contra câncer de colo de útero pode ser fundamental para prevenir os cerca de vinte mil novos casos da doença registrados anualmente no país. Somente 20% das brasileiras fazem o exame preventivo regularmente ¿ atualmente a única maneira disponível de detecção precoce do problema ¿ e aproximadamente quatro mil morrem por ano em razão dos tumores.
A vacina é cara (são necessárias três doses ao custo de US$120 cada) e protege contra a infecção dos dois tipos de HPV responsáveis por 70% dos cânceres de colo de útero ¿ ou seja, não oferece cobertura total. Além disso, a realização periódica do exame Papanicolau (capaz de detectar problemas que podem levar ao desenvolvimento de tumores de colo de útero) é considerada bastante eficaz na prevenção.
Imunizante poderá ser usado por mulheres mais velhas
Tanto é assim que o país com a maior cobertura (a Finlândia, onde 85% das mulheres fazem o exame regularmente) é também o que apresenta a menor incidência desse tipo de câncer. Entretanto, o acesso ao exame é um problema, mesmo nos países ricos. A média de cobertura na Europa, por exemplo, não passa de 60%.
¿ Eu diria que em locais como o Brasil, em que a prevenção não chega sequer a 20% das mulheres, a vacina será uma grande conquista para reduzir a incidência da doença ¿ defende Luisa Lina Villa, chefe do grupo de virologia do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer e coordenadora do teste da vacina no Brasil. ¿ Em termos de relação custo benefício, uma vez que a vacina se mostrou eficaz e é duradoura, é mais fácil vacinar as mulheres do que trazê-las todo ano para Papanicolau e, eventualmente, tratá-las se ficarem doentes.
Se no Brasil o percentual de mulheres que faz o preventivo regularmente não chega a 20%, na grande maioria dos países da África ele é irrisório. Esta semana, uma ONG amparada pela Fundação Bill e Melinda Gates já anunciou que estuda formas de levar a vacina a nações mais pobres, como as do continente africano.
¿ Uma redução significativa das taxas desses tumores só será sentida quando muita gente for vacinada, quando se conseguir implementar a vacina de forma universal ¿ acredita Villa. ¿ Por alguns anos, a incidência vai continuar até que, em algumas décadas, comecemos a ver uma redução em razão da ampla cobertura.
Inicialmente, a Administração de Drogas e Alimentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês) recomendou o uso de Gardasil somente para meninas e mulheres dos nove aos 26 anos. Isso ocorreu, segundo Villa, porque os ensaios clínicos da vacina foram feitos nessa faixa etária. Entretanto, de acordo com a especialista, em princípio não há nada que impeça o uso por mulheres mais velhas.
Os testes foram realizados em mulheres que nunca tinham sido infectadas pelo HPV e se revelou 100% eficaz. Mas ensaios apontaram também que ela pode ser eficaz em proteger, por exemplo, mulheres que foram expostas a um tipo de HPV mas não a outros e ainda àquelas que se infectaram em algum momento mas eliminaram o vírus.
¿ A primeira proposta é para que a vacina seja administrada antes do início da atividade sexual para aumentar proteção ¿ sustenta Villa. ¿ Mas para pessoas de qualquer faixa etária sexualmente ativas a vacina também é indicada porque permitirá a prevenção ao longo da vida. A indicação só não saiu assim porque não concluímos os estudos em pessoas mais velhas.
Grande maioria elimina o vírus naturalmente
A infecção pelo HPV é bastante comum e raramente provoca tumores cancerígenos. De acordo com as estatísticas, 70% das pessoas que contraem o vírus ¿ normalmente transmitido por via sexual ¿ o eliminam sem maiores conseqüências. Em algumas pessoas, no entanto, as infecções persistem por anos. São justamente essas que apresentam maior risco de desenvolver câncer de colo de útero.
Os médicos acreditam hoje que praticamente 100% dos tumores de colo de útero sejam provocados por 13 tipos de HPV. A vacina previne contra dois tipos do vírus que causam 70% dos tumores e ainda contra outros dois subtipos responsáveis por outras lesões.