Título: As perdas de Lula
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 17/06/2006, O GLOBO, p. 2

O presidente Lula nada de braçada nas pesquisas mas pode ser candidato por uma coalizão composta apenas pelo PT e pelo PRB do vice José Alencar. Além do PSB, o PCdoB também pode dar-lhe apenas apoio informal. As pesquisas sugerem que isso não ameaça as chances de Lula vencer no primeiro turno, embora lhe tire minutos preciosos na televisão. O racha do bloco de esquerda, entretanto, pode ter implicações políticas sobre o cada vez mais provável segundo mandato.

O PSB e o PCdoB reclamam da falta de reciprocidade do PT, que vem se recusando a apoiar seus candidatos a governador nos estados. E têm uma desconfiança grave, a de que no fundo o PT não deseje que cumpram a cláusula de barreira, obtendo os 5% de votos nacionais para a Câmara, sendo que 2% concentrados em pelo menos nove estados. Há, entre eles, quem desconfie que o PT deseja mesmo vê-los na lista dos partidos inviáveis que serão obrigados a buscar a fusão com outros para sobreviver. E o PT seria a opção quase obrigatória para o PCdoB e o PSB.

As queixas do PCdoB são conhecidas. Só terá dois candidatos a governador. Mas contra Agnelo Queiroz em Brasília, o PT lançará Arlete Sampaio; e contra o senador Leomar Quintanilha, em Tocantins, apoiará o governador Marcelo Miranda (PMDB). No PSB, a concorrência entre o ministro Eduardo Campos e o petista Humberto Costa na eleição pernambucana é o conflito mais grave mas não é o único. Lula não se dispôs a enquadrar o PT, limitando-se a fazer apelos pela unidade.

A perda de tempo televisivo é significativa. Alckmin disporá de nove minutos e dois segundos e Lula disporia de oito minutos e 22 segundos com o apoio dos dois partidos aliados. Só com o PT e o PRB, ficaria com cinco minutos e 44 segundos. Mantendo o favoritismo de hoje, talvez nem precisasse de mais tempo. Mas campanha é campanha, cada dia com seus imprevistos. E se a oposição persistir na pororoca verbal, Lula pode precisar de tempo para rebater os ataques sem sacrificar os minutos destinados à apresentação de projetos.

Mas é sobre as condições de governabilidade do segundo mandato que o racha poder ter implicações mais graves. O PMDB será um membro ambicioso e voraz da futura coalizão de governo. Rachado, o bloco de esquerda não terá qualquer chance de equilibrar a balança, favorecendo a dominação do governo pelo PMDB. Que tem sempre uma grande bancada mas nunca garante apoio integral a quem apóia. Já era assim com Itamar e FH. Governar não será fácil para ninguém, e quanto mais rarefeito e exíguo o apoio parlamentar, mais difícil será.