Título: BERNANKE FALA E O MERCADO BALANÇA
Autor: Rui Pizarro
Fonte: O Globo, 17/06/2006, Economia, p. 24

Novo presidente do Fed ainda não achou o tom, dizem os analistas

WASHINGTON e RIO. Enquanto Alan Greenspan transmitia segurança e, ao mesmo tempo, incitava à prudência no mercado financeiro ¿ graças ao estilo enigmático ¿ o seu sucessor na presidência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, tem provocado calafrios, alimentando especulações que movem uma montanha-russa nas bolsas de valores.

¿ Ele fala demais. Mais do que deve. O melhor que Bernanke tem a fazer é dizer o mínimo ¿ diz Allan Meltzer, historiador do Fed e professor da Carnegie Mellon University, que define o jeito Bernanke como ¿estilo ziguezague¿.

É justamente nessa categoria que reside, pelo menos para consumo externo, a grande diferença entre Greenspan e Bernanke. Ao longo dos 18 anos em que o primeiro comandou o Fed, todos se habituaram a aguardar com tranqüilidade as reuniões em que a taxa de juros seria decidida. Mas, desde fevereiro, quando Bernanke assumiu, o clima tornou-se de apreensão.

¿ Infelizmente temos na direção do Fed alguém que ainda está treinando para o cargo. Bernanke tem cometido deslizes próprios de um calouro ¿ comenta Michael Holland, presidente da Holland & Co., uma firma de investimentos.

Bernanke, diz ele, tem hábito de fazer o que Greenspan sempre evitou: conversar com jornalistas. Semanas atrás, por exemplo, Bernanke disse à Comissão de Finanças do Congresso que a tendência era haver uma pausa no aperto monetário. A bolsa de Wall Street subiu 30 pontos. À noite, no jantar anual dos correspondentes da Casa Branca, ele falou a uma representante da CNBC que os mercados tinham interpretado mal seus comentários. A informação foi ao ar na manhã seguinte, quando as bolsas despencaram pelo mundo.

Segundo fontes do Fed, a maneira desastrada de Bernanke tem provocado grandes discussões internas. A saída tem sido programar apresentações públicas para que, com discursos cuidadosamente preparados, ele possa transmitir opiniões mais claras.

¿ O problema dele é que, em vez de transmitir mensagens mais consistentes para ajudar a baixar as expectativas, ele fica fazendo um ziguezague baseado nas cifras econômicas mais recentes, como investidor agitado. Dessa forma, ele faz justamente o jogo deles ¿ diz Meltzer.

Assim como Bernanke, o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, esbarrou em dificuldades para se comunicar com o mercado no início de sua gestão, em 2003. Atas muito detalhadas, declarações truncadas e entrevistas mal interpretadas levavam a turbulência no mercado brasileiro. Mas tudo mudou e, hoje, os sinais emitidos pelo BC são perfeitamente compreendidos.

¿ Os analistas podem até discordar do Meirelles. Mas todo mundo sabe exatamente o que ele vai fazer ¿ afirma Alexandre Póvoa.

COLABOROU Luciana Rodrigues