Título: MERCADO ADOTA PISO DE 15% PARA TÍTULOS
Autor: Cássia Almeida
Fonte: O Globo, 17/06/2006, Economia, p. 24
Cenário externo negativo e gastos públicos em alta são motivos alegados
Inflação comportada, caminhando para abaixo da meta de 4,5% este ano, atividade econômica aquecendo moderadamente, uso da capacidade de produção das fábricas estável. Cenário ideal para o Banco Central baixar a taxa básica de juros, a Selic, hoje em 15,25%, mais rapidamente. Certo? Nem tanto. O mercado financeiro não tem aceitado receber remuneração inferior a 15% ao ano para emprestar dinheiro ao governo, por meio da compra de títulos públicos, o que cria dificuldades para o Comitê de Política Monetária (Copom) avançar com mais velocidade na queda dos juros iniciada em setembro de 2005, dizem os analistas.
Inflação nos Estados Unidos, com alta dos juros americanos roubando investidores estrangeiros do Brasil, e alta de juros também na Europa são os fatores externos citados pelos analistas para esse piso adotado pelo mercado para comprar os títulos. Para prazos de resgate mais longos, depois de 2008, pesam também, segundo os economistas, incertezas quanto aos gastos do governo, que aumentaram nos últimos tempos.
O Boletim de Conjuntura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de junho mostra a estabilidade desde março das taxas dos Letras do Tesouro Nacional (títulos com taxas de juros prefixadas) em torno de 15% ao ano.
No mais recente leilão de títulos (quando o Tesouro oferece ao mercado seus papéis buscando comprador entre os que oferecem as menores juros), na última segunda-feira, o mercado aceitou emprestar por uma taxa de 14,98% com o título vencendo em janeiro de 2007; 15,87% para janeiro de 2008; e 16,17% em janeiro de 2009.
Para economista, governo precisa discutir política fiscal
Carlos Cintra, economista-chefe do Banco Prosper, lembra que, em dezembro do ano passado, títulos até com prazos de resgate mais longos pagavam juros menores: 13,88% ao ano com vencimento em 2012, 14,46% para 2008 e 14,10% em 2010. Esse comportamento sinalizava que o mercado acreditava que os juros básicos da economia continuariam em queda.
¿ O governo precisa abrir uma discussão sobre a política fiscal de longo prazo.
Para Estêvão Kopschitz, economista do Ipea, todo o conforto conseguido na economia para o BC começar a baixar juros também veio de fora: taxa de retorno para os investidores baixa tanto na Europa como nos Estados Unidos, muita liquidez e pouca preocupação com o risco de países emergentes como o Brasil. Associado à expansão mundial, aumentando as exportações, chegou-se ao que o economista Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC, chamou de época de ouro.
¿ Quando os ventos mudaram e os investidores estrangeiros se retraíram, voltaram os temores quanto à nossa economia. Se os juros estão altos como no Brasil é sinal que os fundamentos da nossa economia não estão tão bons assim ¿ avalia Kopschitz.