Título: Retirantes numa safra de R$49 bi
Autor: Mariza Louven
Fonte: O Globo, 18/06/2006, Economia, p. 29
Indústria de açúcar e álcool fatura mais 38% este ano e causa forte êxodo para o Centro-Sul
Aindústria de açúcar e de álcool calcula que irá faturar R$49 bilhões nesta safra, 38% a mais do que na anterior. O novo boom da cana-de-açúcar, combinado à falta de alternativas de trabalho e renda em cidades do Nordeste e da região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais ¿- uma das mais pobres do país ¿ vem provocando o êxodo maciço de trabalhadores em direção a estados mais ricos como Rio, São Paulo e Mato Grosso, para onde a indústria sucro-alcooleira está se expandindo.
¿ A grande disponibilidade de mão-de-obra jovem, combinada com a forte demanda das usinas, engrossa as correntes migratórias para o Centro-Sul e o Centro-Oeste ¿ afirma o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Roberto Novais.
Não há dados precisos do número de migrantes empregados no setor, onde predomina a informalidade. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho e Emprego (Caged), houve 251,2 mil contratações formais para o trabalho no cultivo da cana, usinas de açúcar e produção de álcool nos primeiros quatro meses deste ano ¿ 22,4% mais que no mesmo período de 2005. Já a União da Agroindústria Canavieira (Unica) estima em um milhão o número de empregos diretos nesta safra.
¿ Acompanho a migração há mais de 20 anos e estou vendo sobrar gente ¿ relata irmã Inês, da Pastoral do Migrante de Guariba, que abrange 85 municípios de São Paulo. ¿ A Usina Bonfim recusou 90 pessoas depois de constatar contaminação pelo barbeiro, transmissor do mal de Chagas.
`Só em São Paulo ocorrerem 14 mortes por excesso de trabalho¿
Mesmo em São Paulo, onde a mecanização já é responsável por 40% da colheita, o contingente de cortadores manuais cresceu 16% e chegou a 70 mil, 46% do total, segundo o diretor Técnico da Unica, Antonio de Pádua Rodrigues. O chefe da Área de Fiscalização da Delegacia Regional do Trabalho do Rio (DRT-RJ), Guilherme Moreira, também estima que 25% dos cerca de quatro mil trabalhadores na lavoura do estado vieram de fora:
¿ Só a Usina Santa Cruz, de Campos dos Goytacazes, tem 700 migrantes. A Cupim tem mais 400 e deve chegar a 500 este mês.
Na Santa Cruz, os migrantes são 80% da força de corte, informa o gerente Agrícola Augusto de Vasconcelos. A empresa dobrou o número de funcionários em três anos. Hoje emprega 1,4 mil pessoas, mas ainda está precisando de 200 funcionários.
¿ Lá em Iaçu não tem serviço. Por isso a gente tem que agüentar ¿ disse o baiano Jeonice dos Santos Ivo, de 21 anos, depois de um dia de trabalho em que cortou 250 metros de cana (seis toneladas), a R$0,14 o metro, para ganhar R$35.
Eles aceitam o trabalho porque no local de onde vêm a diária é de R$5 a R$10, sem a bóia, lembra o professor da Universidade Federal de São Carlos Francisco Alves.
O setor vem sendo impulsionado pelo consumo interno de álcool e pelas exportações deste produto e do açúcar, cujos preços estão em alta no mercado internacional. Há mais 29 usinas operando ou entrando em operação nesta safra, segundo a Unica. E a área plantada de cana deve chegar a 6,7 milhões de hectares, prevê a Agroconsult.
Com lucros em alta, o setor investe na inovação. Além do aumento da mecanização ¿ exigência da legislação ambiental para reduzir as queimadas que precedem o corte manual ¿ estão sendo usadas novas variedades de cana modificadas biologicamente para ter safras mais longas. Paradoxalmente, o avanço da produtividade é baseado na exploração da força de trabalho, diz Novais.
Nos anos 80, cada trabalhador cortava em média seis toneladas de cana por dia. Hoje as metas vão de oito a 12 toneladas, diz o professor Alves.
¿ Só em São Paulo ocorrerem 14 mortes por excesso de trabalho nas duas últimas safras ¿ computa ele.
A produtividade aumentou, os salários não. O piso dos cortadores em São Paulo era equivalente a 2,5 salários-mínimos na década de 80 e hoje é de R$410.
Os migrantes são preferidos pelas usinas por sua alta produtividade. Alojados geralmente dentro dos canaviais, longe de casa e sem acesso às redes locais de proteção, eles ficam totalmente à mercê do empregador.
¿ A usina costuma adiantar dinheiro da viagem. O trabalhador chega endividado, cativo ¿ diz Novais.
`Lá a gente passa muita precisão: é o lugar mais seco do mundo¿
No fim da safra, a maioria volta para a cidade de origem, mas alguns preferem ficar. É o caso de Edson da Rocha Santos, que saiu de Manuque, Minas Gerais, há um ano, para trabalhar em Campos. Lá, ele ganhava o salário-mínimo e agora tira até R$800. Trouxe mulher, dois filhos e até o cunhado para morar na Tapera, um bairro pobre de Campos, espremido entre a BR 101 e os canaviais.
Ivaneide Maria de Medeiros é outra nova moradora da Tapera. Saiu de Boca da Mata, em Alagoas, com quatro filhos e chegou ao Rio no dia 29 de abril para encontrar o marido, Carlos dos Santos Silva, que tinha vindo trabalhar na Usina Santa Cruz.
¿ Lá a gente passa muita precisão: é o lugar mais seco do mundo.
DA ZONA DA MATA, 11 IRMÃOS PARTIRAM PARA CORTAR CANA EM OUTRAS REGIÕES, na página 30