Título: JUIZ APROVA VENDA DA VARIG
Autor: Erica Ribeiro e Geralda Doca
Fonte: O Globo, 20/06/2006, Economia, p. 27

NV tem 72 horas para pagar US$75 milhões. Hoje 19 aviões podem ficar no chão

AJustiça do Rio aprovou ontem a venda da Varig Operações (partes doméstica e internacional) à NV Participações, formada pela associação Trabalhadores do Grupo Varig (TGV), que no leilão do dia 8 de junho fez a única proposta de compra da companhia. Segundo o juiz Luiz Roberto Ayoub, da 8ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça (TJ) do Rio, o consórcio apresentou as garantias indispensáveis. A NV tem agora 72 horas para depositar os US$75 milhões da primeira parcela da compra ¿ em tese, o prazo vai até sexta-feira, por causa do expediente reduzido na véspera, quando haverá jogo do Brasil. Se o valor não for pago, deve haver um novo leilão. A NV não informou ontem os nomes dos dois investidores estrangeiros que estariam no consórcio.

A nova dona da Varig enfrenta a partir de hoje a possibilidade de ter 19 aviões parados, sob ameaça de arresto por empresas de leasing. O brigadeiro José Carlos Pereira, presidente da Infraero, afirmou que a estatal ¿ que comanda as atividades aeroportuárias do país e é uma das maiores credoras da Varig ¿ trabalhava com a possibilidade de a companhia aérea já ter as atividades paralisadas desde a meia-noite de ontem.

Pereira afirmou que o governo vê com desconfiança a capacidade de os investidores agrupados no NV fazerem o aporte necessário. Segundo o coordenador do TGV, Marcio Marsilac, a NV vai discutir hoje com a diretoria da Varig um plano para distribuição em rotas rentáveis dos 30 aviões que ainda podem voar. Ele também vai pedir ao governo ajuda para evitar o arresto de 19 aviões.

O Ministério da Defesa convocou uma reunião com todos os presidentes de companhias aéreas hoje em Brasília. A suspensão dos vôos internacionais, que teria sido informada pela Varig à Infraero, seria um dos temas tratados com as concorrentes da Varig, já que o atendimento das rotas faz parte do plano de contingência costurado pelo governo há mais de dois meses.

A NV propôs comprar a Varig Operações por R$1,01 bilhão (US$449 milhões), sendo R$500 milhões em debêntures a serem emitidas da nova empresa em 20 anos. Fontes ligadas à Varig especulam que a decisão de ontem transfere para a NV a responsabilidade pelo futuro da empresa.

¿ Se eles afirmam a existência de garantias e crédito mas dizem, obviamente, que depende da homologação, e a partir do momento em que foi conhecido o investidor, a nós cabe somente homologar e torcer para que possamos comemorar a recuperação da Varig. Se os investimentos prometidos forem aportados, as debêntures são substituídas pelo valor da compra ¿ disse Ayoub.

Marsilac disse que se os investidores não conseguirem os US$75 milhões em 72 horas, o grupo irá até o BNDES oferecer as garantiras para obter crédito do banco.

Antes do anúncio da homologação definitiva da oferta, a Casa Civil e diversos órgãos envolvidos no assunto trabalhavam com a possibilidade de quebra da empresa em curtíssimo prazo. Por determinação do Palácio do Planalto, foi criado um Gabinete de Crise de Emergência que vai funcionar em caráter permanente no Ministério da Defesa. A função do grupo ¿ que terá representantes da Anac, Infraero, Casa Civil, dos ministérios da Defesa, Aeronáutica e do Itamaraty ¿ é tomar todas as providências, caso a empresa pare de voar.

O procurador da República no Rio, Andre Tavares Coutinho, requisitou à Polícia Federal abertura de inquérito contra o presidente da Varig, Marcelo Bottini. O processo criminal refere-se à denúncia feita pela Infraero ao Ministério Público de que a Varig teria desviado R$31 milhões de taxas de embarque que não foram repassadas à estatal.

Em função do grande número de vôos cancelados pela Varig nos últimos dias, a companhia ainda tem recursos suficientes para comprar combustível da Petrobras Distribuidora (BR) até hoje. A Varig havia acertado com a BR na sexta-feira a compra de combustível até ontem, dando recebíveis como garantia.

Ontem a Varig não procurou a BR, segundo fontes da distribuidora, para acertar a compra de combustível. Segundo uma fonte, a BR é que procurou a diretoria da Varig durante todo o dia. A presidente da BR, Maria das Graças Foster, somente teria conseguido falar com o presidente da Varig, Marcelo Bottini, no fim da tarde, mas nada de novo foi apresentado pela companhia aérea. Ontem, funcionários da Varig fizeram manifestações em frente ao prédio da Assembléia Legislativa do Rio e no TJ.

COLABOROU Ramona Ordoñez