Título: Tarso: oposição poderá tentar deslegitimar as eleições
Autor: Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 21/06/2006, O País, p. 5

Ministro volta à tese de conspiração em documento interno do governo

BRASÍLIA. Nos bastidores do Planalto persiste o pensamento de que a ¿oposição conservadora e elitista¿ não medirá esforços para derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive na tentativa de ¿deslegitimar o processo eleitoral¿, se for necessário. A tese de que pode haver uma conspiração contra Lula e o PT é clara, numa análise reservada encaminhada por correio eletrônico pelo ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, no último dia 17 de junho, a um grupo restrito de integrantes do governo, militantes petistas e intelectuais de esquerda no Brasil e no exterior.

No texto, ao qual O GLOBO teve acesso, Tarso, depois de fazer um alerta sobre o comportamento da oposição nessa eleição, conclui que a mídia ¿ que diz ser oposicionista na sua maioria ¿ não dará tratamento igualitário para os argumentos do PT e do governo. Tarso reproduz o pensamento vigente no núcleo do governo e escreve que os ataques da oposição apontam para um perigo institucional: ¿Não há nenhum temor, por parte da oposição mais elitista e conservadora, de deslegitimar o processo eleitoral, que coroa o final da transição democrática, se esse for o `custo¿ para Lula ser derrotado.¿

O texto tem o título de ¿Nota rápida de conjuntura nº 6¿. Tarso tem feito, desde que assumiu a pasta no início do ano, análises sobre o momento político e econômico para consumo interna de uma rede fechada de interlocutores.

Tarso diz que Lula aumentou poder aquisitivo dos pobres

Tarso afirma que ataques pessoais contra Lula demonstram que a candidatura de Alckmin não tem direção. Diz que a grande arma ¿da elite da intelectualidade neoliberal e dos líderes políticos de centro-direita¿ era a ¿instabilidade da economia¿. E afirma que o governo Lula, ¿em que pese ter adotado uma política macroeconômica ortodoxa¿, criou políticas sociais e microeconômicas para aumentar o poder aquisitivo dos pobres.

Conselho para respostas a ataques de ¿baixo nível¿

¿Este é o quadro que a oposição não consegue e não conseguirá desmantelar com o seu discurso raivoso. Dificilmente o seu espírito aristocrático, que caracteriza a maioria do tucanato e do PFL, conseguirá compreender esta nova situação: a sua visão de mundo é extremamente alheia a estas necessidades mais elementares da `plebe¿. Daí a confusão de seu discurso eleitoral e o seu apelo a ataques pessoais¿, escreveu Tarso.

Ele aconselha os interlocutores a responder aos ataques de ¿baixo nível¿ e estabelecer comparações entre os governos de Fernando Henrique e de Lula nas áreas de políticas sociais, juros e combate à corrupção e ao crime organizado.

Tarso alerta para a tese do que chama de ¿tucanato-pefelismo¿ de que Lula pode dividir o país ao ter o apoio dos mais pobres. ¿O que `divide¿ a Nação não é a má distribuição de renda, a miséria, a concentração de renda escandalosa e a exclusão social, mas as políticas que as combatem!¿, escreveu Tarso.

¿Devemos nos preparar para um debate desigual: depois de um ano de ataques ao governo, de uma caricaturização completa do PT, de uma transferência de responsabilidades individuais para toda a comunidade partidária, a mídia ¿ quase toda ela oposicionista ¿ não dará um tratamento igualitário para nossos argumentos¿, conclui.

Ele acrescenta que, a partir da base social que apóia o PT, é possível voltar a ter uma relação equilibrada com os setores médios, ¿profundamente impregnados pela idéia de que o `caixa 2¿ no Brasil começou com o PT.¿ E termina dizendo que ¿isso só pode ser feito por uma militância que se reencante com a utopia democrática vinculada à emancipação e à igualdade¿.