Título: Venda da Varig ameaçada
Autor: Erica Ribeiro e Helena Celestino
Fonte: O Globo, 22/06/2006, Economia, p. 21

TGV admite que consórcio pode não pagar 1ª parcela. Juiz de NY dá proteção até dia 28

Ocoordenador da associação Trabalhadores do Grupo Varig (TGV), Márcio Marsillac, admitiu ontem pela primeira vez que a NV Participações, consórcio vencedor do leilão da Varig e criado pelos funcionários, corre o risco de não ter os US$75 milhões necessários para pagar a primeira parcela pela compra da empresa até amanhã, prazo dado pela Justiça para o depósito. Marsillac afirma que, apesar da situação da companhia, que segundo ele teve apenas 19 aviões voando ontem, os três investidores com que a NV negocia ainda não recuaram. Mas não há como garantir que terão os recursos a tempo.

¿ Ninguém aqui tem 100% de segurança de que esses recursos serão apresentados pelos investidores até sexta-feira. Criamos um consórcio e, na hora devida, os nomes dos parceiros surgirão, seja para o sucesso ou a desgraça, na qual o governo terá que pagar a sua conta. Não vamos desistir. Vamos voar nem que seja com uma aeronave ¿ disse Marsillac, diante de funcionários que participavam de uma manifestação em frente ao prédio da Varig, no Rio.

Fontes que acompanham a situação afirmam que a Justiça já não contaria mais com o dinheiro da NV amanhã. Nesse caso, a solução pode estar em um novo leilão, na falência continuada (com a garantia da operação da empresa) até o leilão ou a quebra propriamente dita. Segundo outra fonte, se a NV não depositar os US$75 milhões no prazo, será multada em 20% do valor do lance dado pela companhia ¿ de R$1,01 bilhão.

Juiz de NY decide esperar depósito

Marsillac culpa o governo pela atual situação da Varig, por não promover o encontro de contas (acerto entre o que o governo tem a pagar à Varig e o que ela deve ao governo) e criar barreiras para o financiamento via BNDES. A NV foi ao banco terça-feira para discutir a viabilidade de recursos para capital de giro à Varig, no valor de US$150 milhões.

¿ Tomara Deus que a gente consiga resolver no meio de uma passeata (convocada para amanhã) uma solução de mercado ¿ disse Marsillac.

Rodrigo Marocco, outro coordenador do TGV, afirmou que a NV decidiu participar do leilão por achar que, com a antecipação, haveria uma manobra para decretar a falência da empresa:

¿ Corremos para formular uma proposta de acordo com o edital. No dia seguinte, o juiz (Luiz Roberto Ayoub, da 8ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio) alegou algumas inseguranças como as debêntures (que a NV quer emitir da nova Varig para pagar metade do valor proposto), assunto amplamente discutido com Alvarez & Marsal e Deloitte. Depois, homologou com restrições. Os parceiros dispostos a aportar os US$75 milhões retraíram-se diante da instabilidade jurídica. Onze dias depois, a proposta é homologada sem ele (juiz) mudar uma vírgula, mas com a empresa na atual situação.

O juiz Robert Drain, da Corte de Falências de Manhattan, decidiu esperar até amanhã para a NV depositar os US$75 milhões e pagar parte das dívidas com as empresas de leasing. Se o dinheiro não entrar no banco, haverá outra audiência quarta-feira, que exigirá a entrega imediata dos aviões:

¿ Este tribunal não quer ser responsável pelo fim da Varig, por isso sigo a decisão da Justiça brasileira.

Para preservar o patrimônio das empresas de leasing, Drain autorizou também os credores a colocarem seguranças junto aos aviões parados no solo, para evitar retirada de peças para uso em outras aeronaves.

¿ A Willis já disse que contratará seguranças no Brasil ¿ informou William Rochelle, advogado da empresa, que tem nove turbinas alugadas para a Varig e afirma ter como provar a canibalização dos aviões.

Drain também estendeu até 21 de julho a liminar que impede o arresto de aviões por dívidas vencidas antes de junho de 2005 ¿ quando a Varig entrou em recuperação judicial. Mas essa decisão tem pouca importância, porque a companhia já deve mais US$85 milhões às empresas de leasing.

Na verdade, o veredicto relativamente favorável de Drain não garante proteção total à Varig. Por não ter pago até 13 de junho à International Lease Finance (ILFC), a Varig teve de parar de usar 11 aviões e já começou a devolver as aeronaves. Um tribunal da Flórida exigiu o retorno das nove turbinas da Willis e a Boeing também já ganhou uma ação de devolução.

¿ Sem poder retirar peças dos aviões parados, vai ser quase impossível continuar no ar ¿ disse um advogado dos credores.

O clima no tribunal ontem era menos tenso do que em outras audiências, como se os credores já vissem a hora de ter os aviões de volta. O presidente da Varig, Marcelo Bottini, não apareceu. Drain não aceitou o pedido da IFLC para multar a Varig em US$100 mil por dia devido ao atraso no cumprimento da ordem judicial de manter no solo os aviões alugados.

(*) Correspondente