Título: Inadimplência nas entrelinhas
Autor: Luciana Rodrigues
Fonte: O Globo, 25/06/2006, Economia, p. 31
Crédito consignado mascara taxa recorde de calote nas demais linhas de financiamento
Mais simples e barato, o empréstimo com desconto em folha de pagamento virou febre entre os consumidores. Desde 2004, o volume de operações mais do que dobrou e, hoje, chega a R$37,23 bilhões. Porém, esse avanço veio acompanhado de uma alta na inadimplência de outras modalidades de crédito a pessoas físicas que não aparece nas estatísticas do Banco Central (BC). Segundo estimativas do Grupo de Conjuntura da UFRJ, as prestações em atraso, excluindo os empréstimos consignados, chegam a pelo menos 8,49% do total. É a taxa mais alta dos últimos seis anos.
Como no crédito consignado o pagamento das prestações é automático, o consumidor que se vê em apuros para fechar suas contas acaba atrasando a mensalidade de outros financiamentos. Além disso, segundo analistas, os bancos aproveitaram o respaldo do consignado, no qual o retorno é certo, para serem mais ousados na concessão de outras linhas de financiamento. Com isso, a inadimplência subiu.
Essa alta, porém, não foi captada pelo Banco Central. O levantamento do BC não faz distinção entre o crédito consignado e os demais e calcula uma taxa média de inadimplência que, em abril, era de 7,41%. Isso significa que havia R$12,7 bilhões em prestações com atraso superior a três meses.
Taxa é a mais alta desde maio de 2002
As simulações da UFRJ mostram entretanto que, excetuando o crédito consignado, a inadimplência nas demais linhas de financiamento está entre 8,49% (na melhor das hipóteses) e 9,47% (no pior cenário). Ou seja, acima do recorde de 8,44% da série histórica do BC, iniciada em 2000, e que foi registrado em maio de 2002, quando o crédito consignado ainda não havia sido regulamentado.
¿ Como a inadimplência é baixa no consignado, isso acaba derrubando as taxas de atraso calculadas pelo BC ¿ explica Frederico Felipe Medeiros, do Grupo de Conjuntura da UFRJ. ¿ Mas a alta na inadimplência das demais modalidades de crédito já era prevista e é totalmente administrável, os bancos podem absorver isso.
Se para os bancos e financeiras a alta da inadimplência não chega a ser problema, para os consumidores é, sim, motivo de preocupação. Pesquisa da Telecheque ¿ empresa de verificação de crédito ¿ mostra que, hoje, o descontrole nas contas é o principal motivo alegado por quem atrasa prestações. No início de 2005, as razões que mais freqüentemente levavam ao calote eram o desemprego ou o atraso no recebimento do salário.
Além disso, 20% dos inadimplentes são pessoas que nunca antes haviam tomado empréstimo. O vice-presidente da Telecheque, José Antônio Praxedes Neto, destaca que, no ano passado, foram abertas 5 milhões de contas bancárias.
¿ Quem teve mais acesso aos financiamentos foram os trabalhadores da economia informal, que passaram a integrar o sistema bancário graças a iniciativas como o Banco Popular. E se depararam com uma vasta oferta de crédito por lojas e financeiras. Como diz o ditado, quem nunca comeu melado se lambuza ¿ afirma Praxedes.
Por outro lado, os trabalhadores formais foram seduzidos pelo crédito consignado disponível até nas redes de varejo, para compras de TV e geladeira, por exemplo, ou em cartões de afinidade de farmácias e supermercados, diz Praxedes.
Foi o que aconteceu com a pensionista Mônica Pereira. Hoje ela está pagando três empréstimos com desconto em folha e se queixa do contracheque minguado no fim do mês. Compromete assim quase um terço do seu salário de R$3 mil. Cansada dos descontos automáticos, Mônica decidiu tomar um empréstimo pessoal de R$4 mil numa financeira para quitar antecipadamente os créditos consignados.
¿ Quero limpar meu contracheque e voltar a receber o salário integral. Não tenho reajuste salarial há seis anos, então tenho que correr atrás de empréstimo para poder sobreviver ¿ diz Mônica.
Mas os analistas são unânimes em afirmar que a estratégia de Mônica vai na contramão da economia. O ideal, recomendam, é trocar dívidas caras por outras mais baratas. O crédito consignado tem taxa média de 2,48% ao mês. No empréstimo pessoal das financeiras, os juros são bem mais altos: 11,50%.
Miguel Ribeiro de Oliveira, presidente da Anefac (associação que reúne executivos de finanças), explica que o crédito consignado tem a enorme vantagem de cobrar juros menores. Mas, em contrapartida, não deixa brecha para atrasos.
Depois da recente alta na inadimplência, os analistas traçam um cenário mais favorável para o segundo semestre. Praxedes, da Telecheque, afirma que os próprios lojistas estão mais criteriosos, depois do susto na ressaca do crédito nos primeiros cinco meses do ano.
Ganho de renda traz alívio no orçamento
Além disso, o crescente ganho de renda dos trabalhadores (em maio, a alta foi de 7,7% frente ao mesmo mês do ano passado) e o reajuste do salário-mínimo são um alívio nas contas. Em pesquisa feita pelo Instituto Fecomércio-RJ na Região Metropolitana do Rio, 26,3% das famílias responderam que faltaria dinheiro no orçamento do mês passado. Em maio de 2005, essa parcela foi bem maior: 34,5%.
¿ O orçamento das famílias está se equilibrando. Houve uma alta na renda real, porque a inflação caiu muito. Os juros estão em queda e a concorrência aumentou, o que torna as condições de crédito hoje mais vantajosas ¿ afirma Clarice Messer, diretora do instituto Fecomércio-RJ.
BANCOS AUMENTAM PROVISÕES PARA INADIMPLÊNCIA, na página 32