Título: Intenções e gestos
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 29/06/2006, O GLOBO, p. 2
Um candidato com altas chances de reeleição como o presidente Lula não devia comprar brigas com o TSE e seu polêmico presidente Marco Aurélio, nem dar motivos aos adversários para alvejá-lo com acusações de uso da máquina e infração à lei. Como dizem os mineiros, ele parece ¿estar pedindo para apanhar¿ quando diz, por exemplo, que a lei eleitoral dificulta sua ação de governar.
O que se depreende de tal afirmação é que ele gostaria de livrar-se de uma camisa de força, das limitações legais que existem para garantir alguma eqüidade ao pleito, no que pese a larga vantagem que a reeleição já confere aos que estão no governo. Seus auxiliares dizem que ele quis apenas explicar aos presentes as razões de não poder tomar agora as providências reivindicadas ¿ no caso, a criação de uma faculdade. Seja como for, dizer isso nesta hora de conflito com o TSE é uma demonstração de gosto pelo confronto que nunca foi traço forte do sindicalista que abriu caminho como bom negociador e se elegeu falando em paz e amor.
Na noite de anteontem, a nova ministra do STF, Carmem Lúcia, foi homenageada com jantar no salão cívico da empresária Vera Brant. Meio mundo judiciário estava lá, inclusive Marco Aurélio. Horas antes ele recebera os ministros Tarso Genro e Márcio Thomaz Bastos, que lhe foram apresentar as regras de conduta já adotadas pelo governo, perguntar se algo faltava e pedir sugestões.
A idéia foi de Lula, preocupado com o que poderá fazer a partir de hoje, quando a candidatura será registrada. O governo já baixou mais atos formais que o de FH para regulamentar condutas. Uma instrução do Tesouro sobre transferências para estados e municípios, uma da Secretaria de Comunicação Social sobre publicidade e outra do Planejamento sobre a conduta de ministros e servidores. E ainda uma grossa cartilha incorporando recomendações da Comissão de Ética Pública. As restrições ao presidente estão na lei eleitoral de 1997, aprovada depois da emenda da reeleição. Restrições frouxas, pelas quais o PSDB se penitencia hoje.
Tudo isso foi levado a Marco Aurélio, que disse:
¿ Vou ler os atos. Achei os ministros bem intencionados mas o gesto conflita com a decisão de fazer valer as correções salariais para mim indevidas. Não importa que venham no bojo da reestruturação de carreiras. Importa que haja aumentos acima da inflação.
Ontem ele voltou a criticar Lula pela ampliação do cadastro do Bolsa Família, embora nenhum dispositivo da má regulamentação diga que os programas sociais devam ter a execução suspensa na campanha.
No mesmo jantar, outros ministros do STF e do TSE avaliavam que, se algum partido tivesse a coragem para contestar o aumento dos servidores, Marco Aurélio perderia no plenário. Mas estaria criada uma tal animosidade entre ele e o governo que fatalmente produziria efeitos na campanha. Querendo, o presidente do TSE pode complicar a vida do candidato Lula. E a má regulamentação ajuda. O que muitos não entendem, no Judiciário, é por que o governo insiste no aumento se pode dizer aos servidores que a Justiça o proíbe e prometê-lo para depois, poupando Lula de riscos e iras.
Pragmatismo demais
O ex-presidente Itamar Franco foi derrotado por Newton Cardoso na disputa pela vaga de senador na convenção do PMDB mineiro. Dizem que está um poço até aqui de mágoas com Lula, que anteontem em Contagem (MG) chamou seu algoz de ¿caro Newton¿.
Fechada a coligação PMDB-PT em Minas, a chapa majoritária ganhou o apelido de Ni-Ni, referência a Nilmário Miranda, candidato a governador, e Newton Cardoso, candidato a senador. Será um bom negócio para Newton, um dos políticos mais rejeitados do estado. E pode ser um péssimo negócio para o PT, que não tem a ilusão de derrotar o governador Aécio Neves, candidato à reeleição. A militância petista levou uma ducha fria e a chapa conjunta com o PMDB para a eleição de deputados pode reduzir a um terço a bancada petista na Assembléia estadual.
Ruim para todos
A Câmara deixou Lula numa sinuca: se vetar a emenda que criou o FGTS obrigatório para domésticas, fica mal com elas ¿ embora a medida, tal como aprovada, desestimule a formalização do emprego, que era o objetivo da MP de Lula. Se não vetar, fica mal com as patroas da classe média. E entre as mulheres, Lula tem índices de intenção de voto inferiores aos que tem entre os homens. O governo já começava a estudar saídas ontem. Uma delas pode ser o veto acompanhado da criação de um sistema especial de FGTS para domésticas. A contribuição dos empregadores não seria de 8%, como a das empresas. Seria bem menor, algo em torno de 2%. Mas isso era apenas cogitação a ser ainda juridicamente estudada.
Na Câmara também bateu ontem um certo arrependimento.
¿Ficou ruim para todos¿, dizia o líder do PFL, Rodrigo Maia. Mas ele admite que os deputados não tinham outra saída.
¿ A Câmara é hoje uma Casa que se afunda a cada tentativa de se levantar. Os escândalos foram sempre debitados em sua conta, como se não houvesse do outro lado corruptores e pagadores, inclusive neste caso dos sanguessugas. E ainda tem Lula insuflando o eleitorado, acusando-nos de nada votar, como se a obrigação de aprovar as medidas não fosse de sua própria base. O Senado montou a trampa e não houve como sair dela ¿ diz ele.
A BANCADA ruralista está convencida de que houve ¿algo mais¿ na saída do ministro Roberto Rodrigues: uma trombada no governo, uma pressão a que ele não cedeu. ¿Ele não pediria demissão sem ouvir seus apoiadores, sem comunicar à OCB ou à CNA. Acho que tem a ver com o PMDB¿, diz o deputado Ronaldo Caiado. No governo, juras de que não houve nada além do desconforto de Rodrigues com as críticas e até vaias de sua própria base social. Que agora estaria arrependida e procurando chifre em cabeça de cavalo, ouve-se no Planalto.