Título: ISRAEL PRESSIONA HAMAS COM PRISÃO DE 8 MINISTROS
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Fonte: O Globo, 30/06/2006, O Mundo, p. 31
Incursão de tropas nos territórios detém 87 funcionários do governo, unindo forças adversárias palestinas
CIDADE DE GAZA. Numa inédita operação contra o governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP) para pressionar o Hamas a devolver o militar israelense seqüestrado domingo, tropas israelenses prenderam ontem oito ministros e pelo menos 23 parlamentares ligados ao grupo radical numa incursão nos territórios. A ação militar de Israel levou a uma aproximação entre o Hamas e o Fatah - cujos militantes vinham se enfrentando numa disputa interna de poder - com vistas à resistência a uma nova invasão maciça de Gaza.
A prisão dos ministros privou a ANP de um terço de seu Gabinete e o Hamas acusou Israel de tentar derrubar seu governo, instalado há três meses com sua vitória nas eleições. Na madrugada de hoje (noite de ontem em Brasília), helicópteros atacaram o Ministério do Interior na Cidade de Gaza, deixando-o em chamas. Campos de treinamento da ala militar do Hamas também foram atacados.
- Isto é uma trama planejada para destruir a ANP, o governo e o Parlamento e fazer o povo palestino cair de joelhos - disparou o deputado Mushir al-Masri, do Hamas.
A Síria, que Israel tentou intimidar com vôos rasantes de caças sobre um dos palácios do presidente Bashar al-Assad, disse que manterá seu apoio ao grupo radical. Segundo autoridades israelenses, 87 funcionários governamentais (64 deles pertencentes ao Hamas) foram presos e serão processados por envolvimento com o terror.
- O baile de máscaras acabou - advertiu o ministro da defesa de Israel, Amir Peretz. - Os paletós e as gravatas não servirão mais como cobertura ao envolvimento e ao apoio a seqüestros e terror.
ONU adverte para iminência de crise humanitária
A Organização da Conferência Islâmica, que reúne os 57 países muçulmanos, tachou de criminosa a ação israelense e exortou ao uso da diplomacia para se conseguir a libertação do militar seqüestrado. Em reação às prisões, o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, rival do Hamas, pediu à ONU que intervenha para libertar os detidos. O partido de Abbas, o Fatah, perdedor das eleições de janeiro e apeado do poder, pôs de lado suas divergências com o Hamas e ontem ambos se apresentaram numa frente unida para enfrentar Israel, que já invadiu o sul da Faixa de Gaza e concentra tropas para uma outra investida pelo norte do território, mantido sob bombardeio ontem.
Outros grupos também se puseram em estado de alerta. No norte do território, centenas de militantes com fuzis e lança-rojões se entrincheiraram à espera do ataque das forças israelenses do outro lado da fronteira.
- Vamos confrontar a ocupação por todos os meios, mesmo que custe os nossos pescoços - prometeu Khaled al-Batsh, um dos líderes da Jihad Islâmica.
Negociações intensas lideradas pelo Egito procuravam conseguir a libertação do cabo Gilad Shalit. Num comunicado conjunto, a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, e os chanceleres dos outros países do Grupo dos Oito se disseram preocupados com as ações de Israel e pediram que o país mostre comedimento. Por outro lado, pediram medidas aos palestinos que levem a uma solução.
Ontem, foi enterrado o corpo do estudante Eliahu Asheri, cujo seqüestro, reivindicado pelos Comitês de Resistência Populares, causou comoção em Israel.
Temendo uma crise de grandes proporções em Gaza, onde quase 70% da população estão sem eletricidade e a água é escassa devido aos bombardeios, o chefe dos serviços de assistência humanitária da ONU, Jan Egeland, disse que se Israel não restaurar a energia, as conseqüências para a população serão sérias em dois dias.
- Os palestinos estão rumando para o abismo.