Título: INDECISOS, O FIEL DA BALANÇA NA ELEIÇÃO MEXICANA
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 30/06/2006, O Mundo, p. 33

Desilusão com PRI e polarização entre esquerda e direita dividem eleitores e tornam resultado de domingo imprevisível

CIDADE DO MÉXICO. Domingo passado, Ignácio Díaz e sua mulher, Guadalupe, foram ao Estádio Azteca ouvir Felipe Calderón, o candidato presidencial do Partido Ação Nacional (PAN), vestindo a camiseta branca e azul que ganharam dos organizadores - que também os transportaram de ônibus desde Puebla, com direito a lanche.

Três dias depois, o casal estava novamente na capital, na primeira fila diante do palanque montado no Zócalo, a imensa e histórica praça central da cidade, ouvindo com muita atenção o discurso de 40 minutos de Andrés Manuel López Obrador, candidato do Partido Revolucionário Democrático (PDR).

Ignácio e Guadalupe chegaram ali novamente numa caravana, fretada pelo PRD. E como já não havia mais camisetas disponíveis, deram a ele um boné e a ela um lenço - ambos em amarelo, cor do partido. Ao final, ambos continuavam na mesma situação em que haviam chegado: ainda sem saber em quem votar.

Decepção com o PRI ajuda a confundir eleitores

Desiludidos com o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que havia apoiado em todas as eleições anteriores, o casal pretende resolver até o fim de semana para que lado se inclinar. Ignácio e Guadalupe fazem parte dos 10% a 15% de eleitores que permanecem indecisos e devem ser o fator decisivo neste domingo, uma vez que a disputa entre López Obrador, 52 anos, ex-prefeito da Cidade do México, e Calderón, 43, ex-ministro de Energia, se encontra virtualmente num empate técnico.

- Calderón está prometendo criar mais empregos, um seguro médico para todos e remédios grátis. Isso é bom. Mas eu já tenho 65 anos, e estou cansado de trabalhar. Por isso a promessa de López Obrador também é interessante: ele diz que vai nos garantir uma pensão digna, 20% mais alta que a atual, vai cortar pela metade o custo do gás e da eletricidade. Com isso tudo eu poderia finalmente me aposentar. Mas ainda não sei em qual dos dois confiar. Prometer todo mundo promete, mas na hora de cumprir se esquecem da gente. Preciso conversar melhor com meus amigos para decidir - disse o veterano carpinteiro ao GLOBO, abrindo um sorriso que exibiu seus dois dentes de ouro.

López Obrador, no mais característico estilo populista, se apresenta como "candidato dos pobres e dos esquecidos". Calderón diz que é "o candidato de mãos limpas". Roberto Madrazo, 53 anos, do PRI, que aparece em terceiro lugar e garante ser "o candidato da segurança e do emprego", tenta apresentar-se como alternativa moderada:

- O país não agüenta mais uma aventura da esquerda nem da direita. Não aguenta a aventura dos radicalismos, dos extremos, nem dos conflitos - disse ele em seu último discurso, quarta-feira, em Veracruz.

A Calderón e López Obrador resta rezar e contar com a sorte para obter o decisivo voto dos indecisos. Afinal, desde a meia-noite de quarta-feira nenhum dos candidatos pode mais contar com propaganda política. A lei eleitoral tampouco permite que façam quaisquer manifestações públicas até domingo, inclusive entrevistas aos meios de comunicação. Os sites de suas campanhas na internet também foram tirados do ar.

Segundo o historiador Carlos Monsivais, o grande adversário de todos os candidatos não tem seu nome nas cédulas: é a incerteza, gerada por uma grande frustração.

- No México não se confia mais na política e nem nos políticos. A desconfiança é generalizada. É um salve-se quem puder! - disse ele.