Título: NO MÉXICO, O CONTRADITÓRIO FIM DO GOVERNO FOX
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 01/07/2006, O Mundo, p. 31
Presidente tem o mesmo índice de popularidade de quando foi eleito, mas conclui mandato em clima de frustração
CIDADE DO MÉXICO. Ele ainda conta com um índice de popularidade exatamente igual ao que tinha logo depois de assumir a Presidência, em dezembro de 2000: 65%. No entanto, Vicente Fox deixará o cargo no dia 1º de dezembro num clima de frustração generalizado.
Afinal, ainda que pareça contraditório, a mesma pesquisa de opinião mostrou que apesar de seis em cada dez pessoas o definirem como simpático e bem intencionado, 54% disseram que ele deixou a desejar em termos de administração pública.
Segundo analistas políticos, a eleição de amanhã marca de fato o fim do governo Fox. Já na segunda-feira o vencedor começa a cuidar da transição. Nos cinco meses que restam de mandato, Fox estará praticamente de mãos atadas, mesmo que o vencedor seja Felipe Calderón, candidato de sua agremiação, o Partido Ação Nacional (PAN).
¿ As principais promessas de Fox não foram cumpridas e, em grande parte, por incapacidade dele em obter consenso no Congresso onde nenhuma facção tinha maioria ¿ disse Irma Mendes de Hoyo, pesquisadora da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, na capital.
Candidatos evitam discutir sobre imigração
Os empregos necessários não foram criados. A economia cresceu em ritmo e índice insuficientes. O salário mínimo estancou. Focos de corrupção saltaram às vistas, acumulando-se casos de tráfico de influências envolvendo ministros, colaboradores mais próximos e familiares de Fox, inclusive a primeira-dama, Marta Sahagún.
Até mesmo quem apóia Calderón aguarda mudanças profundas. Embora ele seja do partido de Fox, é de outra linha. O presidente apoiou o candidato derrotado nas primárias.
¿ A eleição deste ano é inédita. Jamais tinham se confrontado, com possibilidade de vitória, dois projetos de governo tão opostos como os dos principais competidores, principalmente no que diz respeito à economia ¿ disse Juan Molinar Horcasitas, deputado federal do PAN.
Andrés Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático (PRD), de esquerda, baseia-se na idéia de que ¿o gasto público, e portanto a dívida, deve ser o motor da economia¿. Calderón crê que o crescimento depende da competitividade da economia ¿e dos investimentos que ela possa atrair¿.
¿ Embora a posição de Calderón tenha a aparência de continuidade do modelo Fox, o projeto dele é bem mais agressivo e abrirá uma nova etapa de estabilidade e crescimento ¿ garantiu o deputado.
Curiosamente, a questão da imigração foi pouco discutida. Calderón disse apenas que pensa em solucionar o problema atraindo investimentos estrangeiros que criem empregos no México. López Obrador disse que resolveria a questão criando projetos públicos que empreguem milhões de pessoas.
Por trás da falta de um exame mais profundo da questão estaria um fato gerado pela própria fuga de mão-de-obra desempregada ou mal empregada no país: esses trabalhadores são hoje a principal fonte de capital externo do México. Quando Fox assumiu o governo, os mexicanos residentes nos EUA tinham enviado nos 12 meses anteriores US$6,6 bilhões. A cifra atual, referente aos últimos 12 meses, é de US$20 bilhões.