Título: EMPREGADOS INFLUENCIAVAM CONSELHO
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Fonte: O Globo, 02/07/2006, Economia, p. 35
Especialistas lembram que até subsidiárias, como a VarigLog, eram deficitárias
BRASÍLIA. A forte influência dos trabalhadores na gestão da Varig é apontada por especialistas como um dos principais erros da companhia. Prova disso é que em 11 anos a empresa teve 11 presidentes e trocou várias vezes o Conselho de Administração. Até junho de 2005, quando a Varig entrou com pedido de recuperação judicial, seus funcionários, via conselho deliberante, nomeavam o conselho de curadores da Fundação Ruben Berta (FRB), que por sua vez indicava o Conselho de Administração.
Com isso, a Varig virou refém dos seus funcionários e nunca conseguiu fazer demissões ou contrariar interesses da categoria.
¿ Controlada pelos empregados, por meio da FRB, a Varig deixou a dívida crescer e esperou por uma solução salvadora do Estado ¿ disse o consultor do setor Paulo Bittencourt Sampaio.
¿ O modelo administrativo adotado pela Varig não permitia reduzir custos nem tomar medidas para torná-la competitiva, como outras fizeram. Isso foi fundamental para o destino da empresa ¿ reforçou Eduardo Puzziollo, do banco Fator.
Os especialistas lembram que a Varig agiu sem limites entre 1975, quando incorporou a Cruzeiro do Sul, e 1991. Era considerada a bandeira nacional e exercia o monopólio das rotas internacionais. Mas, a partir daquele ano, com a abertura do mercado, as tarifas começaram a cair e a rentabilidade da Varig desabou.
De 1990 para cá, a Varig só teve lucro em 1994 ¿ quando declarou uma moratória branca, estruturou a dívida e fechou um acordo com os credores ¿ e em 1997. Todos os demais anos fecharam no vermelho.
A partir de 1999, a empresa passou a ter até déficit operacional, ou seja, suas receitas não cobriam mais suas despesas essenciais. Atualmente, com cancelamento de vôos superior a 50% e atrasos sucessivos nas decolagens, a Varig tem entre 5% e 10% de participação no mercado doméstico, dizem especialistas.
Segundo executivos da companhia, a Varig mantém até hoje empresas que nunca deram lucro, como a Rede Tropical de hotéis, administrada por pessoas indicadas pela FRB, sem experiência no ramo. A Sata também dá prejuízos. A a extinta agência Varig Travel foi outra que sempre acumulou resultados negativos.
A VarigLog ¿ ex-subsidiária da Varig, vendida para a Volo do Brasil este ano e que quer comprar a companhia aérea por US$500 milhões ¿ foi deficitária até 2002, quando foi reestruturada e mudou de comando. A VEM, de manutenção, comprada pela portuguesa TAP, também acumulou anos de prejuízo. Fontes da empresa esperam, se a oferta da VarigLog for adiante, uma mudança radical na Varig, com demissões, inclusive nas subsidiárias. (Geralda Doca)