Título: ESTUDO MOSTRA ERROS NA ADMINISTRAÇÃO DA VARIG
Autor:
Fonte: O Globo, 02/07/2006, Economia, p. 35
Diagnóstico de consultoria aponta inchaço do quadro e falta de transparência, além de assistencialismo da FRB
BRASÍLIA. A Varig, que já foi a maior empresa da aviação brasileira e vive hoje o dilema entre o desaparecimento e o forte encolhimento para sobreviver, não chegou à ruína por acaso. Um diagnóstico ao qual o GLOBO teve acesso, elaborado pela Lufthansa Consulting assim que a Varig aderiu à nova Lei de Falências, mostra erros primários de administração, inchaço e descontrole do quadro de pessoal e falta de transparência das subsidiárias do grupo, como a Rede Tropical de hotéis e a firma de serviços aeroportuários Sata. O estudo serviu de base para a aprovação do plano de recuperação judicial da companhia pelos credores.
Segundo o diagnóstico, a situação da Varig se agravou a partir de 2000, quando o mercado se tornou mais competitivo com a entrada da Gol e o rápido crescimento da TAM. Mas foi em agosto de 2005 que a companhia começou a entrar em colapso: sem dinheiro para fazer manutenção, a empresa parou 14 aviões de uma frota de 78, o que forçou uma redução do número de vôos, principalmente no mercado doméstico. Só o leasing dessas aeronaves paradas custava US$3,8 milhões por mês.
Número de pilotos por avião era 45% superior ao das rivais
No cenário internacional, o desempenho da Varig também já não era dos melhores. Entre 2004 e 2005, a ocupação dos aviões da companhia nos vôos internacionais era menor que a da concorrência. De acordo com o diagnóstico, a receita da Varig por assento/quilômetro era 30% abaixo da registrada pelas empresas estrangeiras com linhas para o Brasil. E com um complicador: os gastos da Varig eram superiores aos das concorrentes.
Frota heterogênea ¿ com diferentes tipos de aviões, motores e pneus ¿ contratos de leasing de curto prazo (dois a quatro anos) e freqüentes mudanças na diretoria da empresa, segundo o estudo, elevaram os custos operacionais e reduziram a eficiência e a produtividade da Varig. Os fluxos de caixa constantemente negativos também contribuíram para o acúmulo de dívidas.
Além de citar a falta de transparência nas empresas do grupo Varig, o estudo faz críticas ao sistema de organização da companhia, com sete níveis hierárquicos e falta de controle da atuação de cada um. A consultoria destaca que nos últimos 20 anos o fluxo de passageiros nos aeroportos de São Paulo aumentou de cinco milhões para 27 milhões por ano e no Rio, de sete milhões para 11 milhões. Apesar disso, a Varig manteve suas bases no Rio e em Porto Alegre.
Com 11.967 funcionários, o diagnóstico mostra que a Varig tem um quadro excessivo de funcionários, pois emprega 1.740 pilotos e 3.700 comissários de bordo para 78 aviões. Isso significa 22,3 pilotos e 47,4 comissários de bordo por avião, ou seja, 45% a mais do que a concorrência.
Entre os gastos elevados com pessoal, o estudo apontou nível elevado de horas extras, que custam US$5 milhões por ano, e falta de controle das ausências temporárias de funcionários (menos de 15 dias): em junho de 2005, 458 estavam afastados por, no mínimo, 180 dias.
Mas a Fundação Ruben Berta (FRB), afastada da gestão da Varig por determinação da Justiça do Rio, que conduz o processo de recuperação, lembram especialistas do setor, tem culpa na derrocada da companhia. Por exemplo, em 2002, a Varig perdeu a oportunidade de ser saneada e receber um aporte de US$300 milhões do BNDES. A Fundação se negou a diluir a sua participação na companhia para algo entre 5% e 10%, como exigiam o comitê de credores e o governo federal. Resultado: entre 2002 e 2005, o patrimônio negativo da aérea mais do que quadruplicou, saltando de R$1,9 bilhão para R$7,9 bilhões.
¿ Se a Fundação tivesse aceitado a proposta do governo, a Varig estaria hoje brigando pela liderança no mercado ¿ diz o ex-presidente da empresa Arnim Lore, acrescentando que à época a companhia era duas vezes maior do que a Gol e superior à TAM.
FRB dava até enxovais para filhos de funcionários
Especialistas do setor destacam que os erros de gestão da FRB são históricos e vão desde investimentos fora do setor aéreo ao assistencialismo aos funcionários. Na década de 80, contam, a Fundação investiu até em criação de pintos no interior do Rio Grande do Sul, São Paulo, Belém e Santarém.
Naquela época, a FRB distribuía milhares de pares de sapatos e uniformes para os filhos dos funcionários, além de livros, cadernos e enxovais para recém-nascidos, tudo às custas da companhia. Até hoje a Varig mantém uma estrutura pesada, como restaurantes e ambulatórios médicos próprios em Porto Alegre, Rio e São Paulo.