Título: Insegurança no meio da escuridão
Autor: Renata Malkes
Fonte: O Globo, 02/07/2006, O Mundo, p. 45
TEL AVIV. Para milhares de civis palestinos, a volta das tropas israelenses à Faixa de Gaza representa uma viagem ao túnel do tempo. As dificuldades de realizar tarefas básicas do dia-a-dia, como ir ao supermercado, levar as crianças para passear e até mesmo assistir à televisão trazem de volta o medo e a insegurança. Para o comerciante Ibrahim, de 35 anos, a vida em Gaza tornou-se insuportável há muito tempo.
Há apenas um ano, Ibrahim morava na aldeia de Mowassi, próximo de Khan Yunis, com a mulher e os quatros filhos e ganhava a vida trabalhando na agricultura dos assentamentos judaicos em Gush Katif, desmantelados pelo plano de retirada do premier Ariel Sharon. Após perder o emprego com a saída dos israelenses, a família se mudou para a periferia da Cidade de Gaza e o ex-agricultor ganha a vida hoje numa feira. Segundo ele, se a vida já era difícil para os palestinos, hoje Gaza se transformou no maior campo de refugiados do mundo.
¿ Trabalho 12 horas e recebo por dia cerca de US$15. Financeiramente a vida era um pouco melhor quando havia as colônias, mas viver sob a ameaça do Exército é um castigo. Saio do trabalho e tenho medo de ser a próxima vítima. Quando não há operações militares dos israelenses, sempre há o risco de ser alvo de um míssil ou de trocas de tiros entre grupos armados rivais. Quando o Exército entra, temos que nos refugiar em nós mesmos e em Deus. As crianças não podem sair às ruas sozinhas, falta comida, falta água e depois de um dia longo de trabalho nem TV podemos assistir devido aos cortes de energia. Até quando seremos prisioneiros? ¿ desabafou.
Ofensiva israelense é como bomba-relógio, diz ONU
De acordo com o mais recente relatório do escritório de Coordenação de Ajuda Humanitária da ONU em Gaza, a ofensiva israelense tem o mesmo efeito de uma bomba-relógio prestes a explodir. Em toda a Faixa de Gaza há cortes rotativos de energia que duram entre 10 e 12 horas diárias, forçando uma sobrecarga de geradores durante os períodos de consumo máximo e provocando um aumento do uso de combustível. As padarias têm energia para produzir pão e alimentos só durante os próximos três dias e as altas temperaturas têm estragado estoques de verduras e legumes.
Segundo a ONU, caso Israel não recue e abra os postos de controle de fronteira até quarta-feira e permita a entrada de ajuda internacional, Gaza pode presenciar uma das maiores catástrofes humanitárias da História.
O produtor de TV Suheil Khader, morador de Beit Lahiya, no norte da Faixa de Gaza, responsabiliza Israel pelo inferno em que se transformou a vida dos palestinos. Khader trabalha como tradutor free-lancer para jornalistas internacionais que cobrem o conflito em Gaza e sente-se seguro durante as horas de trabalho em que acompanha repórteres europeus. Nas horas de descanso, conta estar apavorado. Segundo ele, a estratégia de destruir a infra-estrutura palestina, como usinas de energia, fábricas e até mesmo hospitais mostra que as tropas israelenses não têm a menor preocupação com a vida de civis num dos territórios mais populosos do mundo.
¿ Imaginem o que é estar aqui sem energia em pleno verão, presos em casa? Israel não pensa em nós, cidadãos de bem. Se querem caçar terroristas, que façam isso de outra maneira, não punindo a todo um povo.
O escritório do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, disse ontem que o impasse nas negociações para a libertação do cabo Gilad Shalit está numa confusão sobre quem manda no Hamas. Abbas pertence ao grupo rival, o Fatah. ¿A liderança política do Hamas diz que a decisão depende de sua ala militar em Gaza, enquanto os milicianos dizem que a decisão está nas mãos da liderança política¿, criticou o escritório em comunicado, acusando o premier Ismail Haniyeh de omissão. Soldados israelenses e atiradores do Hamas entraram em confronto no sul de Gaza, mas não houve feridos.(R.M.)