Título: Quando foguetes se tornam rotina
Autor: Renata Malkes
Fonte: O Globo, 02/07/2006, O Mundo, p. 45
TEL AVIV. A poucos quilômetros da fronteira com a Faixa de Gaza, o município israelense de Sderot vive um aparente clima de tranqüilidade típico de cidade do interior. Não há tanques nas ruas, tropas infiltradas ou batalhas campais, mas a rotina pode ser quebrada de repente, quando toca a sirene shachar adom (amanhecer vermelho, em hebraico), avisando que mais um foguete Qassam foi lançado contra a cidade. Só no último mês, foram mais de 300 foguetes disparados por grupos armados palestinos do norte de Gaza. Dezenas de moradores foram feridos, muitos internados vítimas de choque e o pânico de andar nas ruas é o único sentimento que une os moradores aos vizinhos palestinos em Gaza.
Apesar das férias de verão, as ruas da cidade estão semi-desertas e as crianças tentam passar o tempo vendo televisão ou brincando em frente ao computador. Segundo o comerciante Shalom Ifrach, de 46 anos, os moradores estão inconformados com os ataques diários contra a cidade. Shalom passa pelo menos três horas por dia em turnos de revezamento numa tenda de protesto montada em frente à prefeitura. Os moradores cobram segurança e as manifestações são ainda mais duras em frente à casa do mais ilustre habitante da cidade, o ministro da Defesa, Amir Peretz, líder do Partido Trabalhista.
¿ Não é possível que ninguém possa fazer nada, o governo ataca Gaza, fala e os foguetes continuam. Ninguém mais pode andar tranqüilo na rua. Nem mesmo a família do Peretz está a salvo. Seu filho Ohad está sempre protestando junto com os moradores. Quando toca a sirene, é uma correria só e o pior é que quando o sistema é acionado e os radares detectam o foguete a caminho, demoram apenas sete segundos para que ele saia de Gaza e atinja Sderot. Como podemos nos defender em sete segundos? Ouvimos o barulho e rezamos para que nada de mau aconteça ¿ contou ele.
Professora faz greve de fome para protestar
A professora Yael Terry contou que a tensão entrou de vez na vida dos moradores. Após uma crise nervosa ao ver um Qassam cair a poucos metros de sua casa, Yael deixou o trabalho e juntou-se aos manifestantes. Fez greve de fome por uma semana, recebeu ameaças de ser demitida e chegou às manchetes dos jornais israelenses. Ela conta ser impossível ficar imune aos acontecimentos e diz que cada um lida com o medo de uma maneira diferente.
¿ Uns entram em pânico, outros se trancam em casa. Eu fiz greve de fome e depois recebi uma carta da ministra da Educação pedindo desculpas pela represália e pelas ameaças de demissão. Como cidadã, tenho direito de protestar como bem entender. As crianças estão em casa desanimadas e os mais velhos tentam brincar. Um dos jovens da cidade gravou a sirene e transformou-a em toque de celular. Como se não bastasse termos que ouvir a sirene verdadeira, ela agora toca no ônibus, na rua e em qualquer canto ¿ contou.
Na delegacia de polícia de Sderot, peritos acumulam dúzias de foguetes e estilhaços recolhidos nas últimas semanas. O brasileiro Daniel Zitune, de 27 anos, perdeu a conta do número de vezes em que teve as aulas interrompidas por um foguete Qassam. Ele mora em Israel há cinco anos e estuda logística na faculdade Sapir, a única da região de Sderot. A última vez, há dez dias, um foguete caiu ao lado das salas de aula de uma escola primária nos fundos da faculdade. Segundo ele, quando toca a sirene, as aulas são imediatamente suspensas e todos deixam as salas correndo em busca de abrigo.
¿ Ouvir a sirene por si só já causa pânico e muita gente fica apavorada. Eu não tenho medo, prefiro acreditar que Deus decide a hora certa. Se tiver que acontecer algo comigo, vai acontecer de qualquer jeito, mas o clima é insuportável. Esta semana começam as provas antes das férias de verão e torço para que não haja Qassans. Não dá para se concentrar com tanta tens. (R.M.)