Título: `SOY PRESIDENTE!¿
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 04/07/2006, O Mundo, p. 24

Calderón tem 1% de vantagem sobre López Obrador, mas os dois declaram vitória

Os mexicanos estão vivendo desde domingo o dia mais longo de sua nascente democracia: ontem à noite eles ainda não sabiam quem teria sido eleito presidente da República. E embora a apuração de 98,2% dos votos tivesse mostrado que Felipe Calderón, do Partido Ação Nacional (PAN) tinha uma vantagem de 1% sobre Andrés Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático (PRD), as autoridades eleitorais resistiam a declarar a sua vitória.

O Instituto Federal Eleitoral (IFE) voltou a insistir que o resultado oficial só será conhecido amanhã ¿ mais provavelmente à noite ¿ depois que forem revistos cada um dos votos depositados nas urnas. Calderón se irritou com isso. Ele fez de tudo para que o IFE anunciasse a sua vitória na noite de ontem:

¿ Trata-se de um resultado irreversível a meu favor. Passei a noite toda acordado à espera do anúncio. Com um voto a mais se garante a vitória. E eu tenho cerca de 400 mil votos a mais. O que é que estão esperando? ¿ indignou-se ele.

Calderón, curiosamente, apelou à mesma palavra que López Obrador utilizara durante a madrugada, quando foi ao Zócalo, a grande praça no centro histórico da capital mexicana, anunciar a uma multidão de simpatizantes de que havia vencido:

¿ Quero informar ao povo do México que de acordo com nossos dados nós ganhamos a Presidência da República. Estamos com pelo menos 500 mil votos acima, segundo nossas pesquisas. Nossa vitória é irreversível ¿ afirmou.

Ontem à tarde, quando lhe disseram que segundo os informes do IFE Calderón mantinha-se à frente ¿ às vezes com 0,6%, às vezes com 1% de vantagem ¿ López Obrador acenou com a possibilidade de um conflito que poderia mergulhar o país num clima de intranqüilidade:

¿ Eu aceito o resultado que o IFE anunciar, mas desde que me mostrem provas suficientes para ratificá-lo. Eu só aceitarei as cifras do IFE depois de compará-las com as provas que nós reunimos. Quero ver os papéis. Todos sabem que quando defendo algo é porque tenho razão ¿ disse o candidato do PRD.

Dessa forma, o país permanecia dividido pela metade: cada uma delas com o seu próprio novo presidente. Por isso permanecia a tensão, o temor de distúrbios. Mas também surgiu um lado positivo. Embora mínima, a vantagem que Calderón vinha mantendo ¿ ainda que basicamente a conta-gotas ¿ serviu para tranqüilizar os mercados financeiros. Graças a isso, a bolsa de valores mexicana fechou ontem com uma alta de 4,77%.

No entanto, Carlos Peyrelongue, diretor de análises da financeira Merril Lynch, disse que as portas continuavam abertas às especulações e aos temores:

¿ A questão-chave será a reação de quem perdeu quando o resultado for anunciado amanhã. Se as forças políticas derrotadas não reconhecerem o resultado, vamos ter volatilidade. E, em conseqüência, incertezas que prejudicarão muito o país ¿ disse ele.

Num claro esforço de preservar a tranqüilidade, o Conselho Mexicano de Homens de Negócios ¿ que reúne os donos das maiores empresas do país ¿ emitiu um comunicado afirmando que vai trabalhar com quem quer que seja eleito presidente.

¿ Seja quem for o vencedor, nós devemos informar a ele que estamos todos no mesmo barco e que temos de remar até o mesmo destino. As campanhas políticas tendem a mostrar as diferenças, mas o que devemos encontrar são as coincidências ¿ disse Gastón Azcárraga, presidente daquela entidade ao divulgar o documento.

Embora as empresas contratadas para realizarem pesquisas de boca-de-urna tivessem se negado a divulgar os resultados ¿ uma vez que a vantagem de um candidato sobre outro era menor do que 1% ¿ elas traçaram um perfil do eleitorado. O traço mais claro era o de que a metade norte do país ¿ o território mais rico ¿ votou em Calderón (47%) e a sul em López Obrador (44%).

O candidato do PAN também ficou com a maior parte (37%) do eleitorado masculino. A maioria das mulheres (38%) preferiu o do PRD. Os mais jovens (38%), na faixa de 18 a 29 anos, ficaram com Calderón, assim como os 38% entre 30 e 49 anos. López Obrador levou vantagem com os eleitores (37%) com mais de 50 anos.

Calderón liderou de ponta a ponta em nível de escolaridade: obteve mais votos tanto entre os que têm apenas educação primária (34% votaram nele), quanto secundária (37%) e superior (42%). Ele também conquistou 50% do apoio de quem tem renda superior equivalente a US$800 mensais e 43% de quem está na faixa de US$570 a US$799. Desse nível para baixo a maioria deu apoio a López Obrador.

De acordo com os pesquisadores, os eleitores disseram que as afirmações feitas pelos adversários de López Obrador de que ele é um perigo para o México levaram 52,5% a voltarem em Calderón. Ao mesmo tempo, 56,6% dos que votaram no candidato do PRD disseram que foram motivados especialmente pela denúncia de López Obrador de que um cunhado de Calderón ganhara muito dinheiro fazendo negócios com o governo, através de suas empresas, graças à influência do candidato que, na época, era ministro da Energia.