Título: Sinais de trânsito
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 05/07/2006, O País, p. 2

Pode haver mais que pragmatismo na estratégia da campanha do presidente Lula de reunir em seu palanque, nos estados, todos os seus apoiadores, vale dizer, candidatos a governador de diferentes partidos. O que se vê em tal iniciativa é uma senha para a construção da desejada coalizão de governo que poderá, ou não, resultar na criação de um grande partido de centro-esquerda.

O duplo palanque sempre foi problema para os candidatos a presidente. Fernando Henrique sofreu com isso em 1998 em diversos estados, inclusive no Rio (Cesar Maia e Luiz Paulo) e em Minas (Itamar e Eduardo Azeredo), estados que visitou duas vezes na campanha para prestigiar um e outro palanque. Lula também enfrentou o problema em 2002. Agora, faria diferente. Ele é que montaria um palanque e nele reuniria, em comício, todos os apoiadores. E ainda gravaria mensagem para todos os candidatos aliados, não só para os do PT. Por exemplo, para Eduardo Campos (PSB) e Humberto Costa (PT) em Pernambuco.

Embora a iniciativa tenha cunho eleitoral, estaria sinalizando a disposição de Lula para liderar o processo de reorganização partidária, aproximando forças que estariam reunidas na coalizão (que incluiria também tucanos, além de peemedebistas e pequenos partidos). O vazamento freqüente de notícias sobre tal projeto político é visto aqui e ali como uma forma de testar a resistência do PT. Se a vocação hegemonista do partido já dificulta a construção de alianças eleitorais, imagine-se a junção com outras forças para compartilhar de fato o governo num eventual segundo mandato e, talvez, formar um novo e grande partido, o "partidão" de que falam certos governistas. Mas pelo menos em relação à estratégia eleitoral, o presidente do partido, Ricardo Berzoini, não faz objeção:

- De nossa parte não tem reação. A campanha é do presidente e sua candidatura é maior que o partido. Ela é do PT, do PCdoB, do PRB e tem o apoio de outros partidos.

O que virá depois, dependendo resultado da disputa presidencial e da eleição do novo Congresso. Mas é claro, diz o deputado Moreira Franco, que uma reforma partidária e eleitoral só sairá sob a liderança do futuro presidente, seja ele quem for.

- A Câmara não pode continuar como está, afundada no descrédito e na inoperância. Mas, mesmo renovada, está claro que não terá condições de liderar o processo de reforma política que o país reclama. Neste sentido, é bom que todos os candidatos a presidente tenham projetos para o sistema político. Para a economia, o essencial já foi resolvido. Era a inflação.

Todos falam em reforma política, mas uma diferença está clara. Lula proporia o fim da reeleição. Alckmin ainda defende o sistema.