Título: DESAFIO NORTE-COREANO
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Fonte: O Globo, 05/07/2006, O Mundo, p. 32

País lança pelo menos 6 mísseis no Mar do Japão no Dia da Independência dos EUA

Duas semanas depois de ter ameaçado fazer um teste de seu míssil balístico Taepodong-2, causando alvoroço internacional, a Coréia do Norte lançou nesta madrugada (noite de ontem no Brasil) pelo menos seis mísseis no Mar do Japão, num novo desafio a seus vizinhos no Extremo Oriente e aos Estados Unidos, preocupados com a capacidade militar do regime norte-coreano.

Cinco mísseis eram de médio alcance, mas o sexto - segundo fontes do Departamento de Estado americano - seria o temido Taepodong-2, que teria falhado após 40 segundos de vôo. Embora haja incerteza sobre o alcance dessa arma norte-coreana, especula-se que tenha capacidade para atingir todo o arquipélago japonês e até mesmo o Alasca, na parte continental dos Estados Unidos. Tóquio quer levar o assunto ao Conselho de Segurança da ONU e ameaça com sanções.

O governo americano classificou o lançamento - realizado no Dia da Independência dos EUA - de "ato provocativo". A secretária de Estado, Condoleezza Rice, entrou em contato com os chefes das diplomacias dos outros quatro países - Rússia, China, Japão e Coréia do Sul - que junto com Washington vêm entabulando negociações com a Coréia do Norte na tentativa de levá-la a abrir mão de seu programa nuclear bélico.

O presidente George W. Bush se manteve em contato com Condoleezza e com o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, acompanhando a situação. O secretário de Estado assistente Christopher Hill, principal negociador do lado americano, pode embarcar hoje para o Oriente e o embaixador dos EUA na ONU, John Bolton, está em consulta com os outros membros do Conselho de Segurança para decidir como reagir aos lançamentos.

- Os norte-coreanos voltaram a isolar-se - afirmou o porta-voz da Casa Branca, Tony Snow.

Os mísseis foram lançados pouco depois da decolagem do ônibus espacial Discovery na Flórida.

- Chamou a atenção de todo mundo em pleno 4 de Julho. Kim Jong-il também pode soltar fogos de artifício - comentou John Pike, diretor do site de segurança GlobalSecurity.org, referindo-se ao líder norte-coreano.

Japão e Coréia do Sul em alerta

O Japão tachou o lançamento de ameaça à paz e convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança Nacional. A Coréia do Sul fez o mesmo com seus ministros relacionados a essa área.

- É lamentável e protestamos fortemente contra a Coréia do Norte por prosseguir com o lançamento apesar das reclamações internacionais - assinalou o porta-voz do Gabinete japonês, Shinzo Abe. - Isso é lamentável, do ponto de vista da segurança do Japão, da estabilidade da comunidade internacional e da não-proliferação de armas de destruição em massa.

Os primeiros relatos dos lançamentos vieram da estação de TV japonesa NHK, segundo a qual dois mísseis haviam sido disparados: um deles teria caído no Mar do Japão, a 600 quilômetros do país. Fontes do Ministério da Defesa indicaram à emissora que logo em seguida o segundo míssil foi lançado, também caindo do Mar do Japão. Mais tarde, a Casa Branca disse que pelo menos seis mísseis teriam sido disparados. Nos Estados Unidos, um funcionário do Pentágono disse que os disparos de médio alcance parecem ter envolvido Rodongs, do tipo Scud, antigo modelo soviético copiado e aperfeiçoado por diversos países. Outras fontes no Departamento de Estado indicaram que os lançamentos ocorreram de um local diferente do que é monitorado pelos serviços de inteligência estrangeiros. Só o Taepodong-2 teria sido disparado da plataforma vigiada.

Na segunda-feira, Pyongyang prometera lançar um ataque atômico "aniquilador" se os Estados Unidos fizerem um ataque preventivo contra as instalações nucleares do país. Foi apenas em 2005 que o regime norte-coreano admitiu ter um arsenal nuclear. No fim do mês passado, os governos americano e japonês advertiram Pyongyang de que o lançamento do Taepodong-2 poderia levar à adoção de sanções, mas a Coréia do Norte respondeu reafimando seu direito de testar o míssil. Ele foi testado pela primeira vez em 1998, num vôo sobre o Japão, mas em 1999 o governo norte-coreano decretou uma moratória nos lançamentos. Especialistas acreditam que o Taepodong-2 não tem ainda capacidade de carregar uma ogiva nuclear a uma longa distância. Ainda assim, o Pentágono ordenou dias atrás que o complexo de defesa aérea da Montanha Cheyenne, no Colorado, entrasse em alerta elevado. Além disso, o Comando Norte impôs restrições ao vôo de aeronaves comerciais sobre as bases da Força Aérea de Vandenberg, na Califórnia, e Fort Greely, no Alasca, de onde partem os mísseis interceptadores a um ataque com mísseis balísticos internacionais.

Antes de que se espalhasse a notícia dos lançamentos, a China anunciara que enviaria a Pyongyang o vice-premier Hui Liangyu para tentar reavivar as negociações de que a Coréia do Norte se retirou em novembro em protesto contra sanções a várias de suas instituições financeiras acusadas de lavagem de dinheiro.

Históricodos testes

Há oito anos os testes de mísseis da Coréia do Norte são motivo de preocupação, principalmente do Japão e dos Estados Unidos.

1998: Um míssil da Coréia do Norte sobrevoa o território japonês e cai no Oceano Pacífico, gerando uma crise entre os dois países. Pyongyang diz que lançou apenas um satélite. No mesmo ano, a Coréia do Sul captura um submarino norte-coreano em suas águas. Os nove tripulantes são encontrados mortos.

2002: O presidente Bush diz que a proliferação de mísseis de longo alcance é uma ameaça tão grande quanto o terrorismo. Ele chama três países suspeitos de desenvolver armas de destruição em massa - Coréia do Norte, Irã e Iraque - de Eixo do Mal.

2005: O governo norte-coreano admite ter armas nucleares, obtidas por meio de um programa nuclear iniciado em 2002.

2006: Os governos dos Estados Unidos e do Japão divulgam em junho que imagens de satélite mostram que os norte-coreanos preparam um teste com um míssil de longo alcance capaz de atingir o Alasca.

Inclui quadro:Um arsenal sob suspeita