Título: RISCO DE DISTÚRBIOS PREOCUPA ANALISTAS
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 05/07/2006, O Mundo, p. 33
Novo presidente terá que administrar um país rachado e um Congresso dividido
CIDADE DO MÉXICO. A preocupação é com as manobras de curto prazo, que poderiam levar à tentativa de impugnação das eleições presidenciais - e, em consequência, mergulhar o país num clima de incertezas, com o risco de distúrbios. Mas os mexicanos também estão preocupados em saber que país eles terão depois que, de uma forma ou outra, seja determinado quem será o novo presidente.
A apreensão maior reside no fato de que o México está rachado em dois. E são duas partes polarizadas, que terão de ser administradas por um presidente que além de ter obtido uma vantagem mínima - tudo indica que a diferença será mesmo de no máximo 1% dos votos - vai ter que governar com um Congresso dividido em três parcelas praticamente iguais, sendo que apenas uma delas estará incondicionalmente ao seu lado.
- Qualquer impugnação deve estar devidamente fundamentada. Do contrário ela será vista como uma pretensão de modificar a vontade do povo mexicano - alerta Bernardo Ledesma Uribe, diretor da Ordem dos Advogados do México.
Assumindo como inevitável a permanência do quadro atual, ou seja, a vitória de Felipe Calderón, do PAN, o analista político Enrique Quintana diz que o maior desafio do novo presidente será o de se legitimar diante da maioria que não votou nele.
A matemática reforça o seu argumento. Quintana lembra que 42,2 milhões de mexicanos votaram e, subtraindo desse total os dois milhões de votos nulos ou em branco, sobra o fato de que do total de votos válidos 60,7% apoiaram outros candidatos.
- Os dados do Instituto Federal Eleitoral indicam que Calderón terá 14,3 milhões de votos. Como o número de eleitores registrados é de 71,7 milhões (desses votaram 59,8%), as cifras mostram que ele recebeu o voto de apenas uma em cada cinco pessoas. Por isso, a sua primeira tarefa terá de ser a de se legitimar diante dessas quatro que não votaram nele ou que simplesmente deixaram de votar.
Raciocínio parecido é feito por Federico Reyes Heroles, colunista do jornal "Reforma". Como o próximo presidente governará com pouco mais de 20% do total de votantes potenciais, terá pela frente "uma oposição ativa com voz, e também um México que permaneceu em silêncio":
- O país ratificou a sua divisão entre um norte que apóia o PAN e um sul que está com o PDR. Calderón sendo eleito terá que se lembrar, sempre, das exigências dos mexicanos que não votaram nele. Se López Obrador for o vencedor, terá que se lembrar que os seus simplismos, como o cenário de pobres contra ricos, não retratam esse outro México que existe; e que as ironias que fez sobre os que não pagam impostos mostram ignorância sobre o papel da empresa no México como geradora de riqueza, de empregos.
Em meio a essa situação complexa, salta também uma questão que tanto Calderón quanto López Obrador ainda não definiram claramente: quando e como será construída uma agenda de governo, que leve em consideração essa clara divisão. Para Alberto Aziz Nassif, pesquisador do Centro de Investigações e Estudos Superiores em Antropologia Social, depois de iniciar "um processo de cicatrização", será preciso abrir um processo de inclusão. E o obstáculo será ainda maior para o novo presidente:
-- Ele terá margens menores de negociação e um cenário mais complexo na tentativa de buscar pactos e acordos. Um presidente com 36% dos votos e um Congresso dividido em três são indícios nada positivos.
Javier Corral Jurado, senador do PAN, diz que Calderón está consciente de que tem pela frente o grande desafio de "buscar um rosto mais social".
- O PAN tem o dever de ler adequadamente a distância entre a sua vitória em 2000 e o triunfo de domingo. Ela é marcada por uma mudança: da alegria e do entusiasmo, para o medo e a sociedade dividida. Se os dois protagonistas não derem uma atenção ao significado desta eleição, poderíamos derivar para um rancor social. (J.M.P.)
"O presidente terá margens menores de negociação e um cenário mais complexo para buscar acordos"
ALBERTO AZIZ NASSIF