Título: TRÊS MILHÕES DE VOTOS SÃO OMITIDOS NO MÉXICO
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 05/07/2006, O Mundo, p. 33

Presidente do Instituto Eleitoral admite que resultado, com Calderón à frente, pode mudar. López Obrador denuncia fraude

CIDADE DO MÉXICO. O clima de apreensão no México cresceu ontem à tarde, quando o presidente do Instituto Federal Eleitoral (IFE), Luis Carlos Ugalde, deixou transparecer que o resultado da eleição presidencial poderá ter um resultado diferente do anunciado na noite de segunda-feira, quando a entidade deu por encerrada a sua apuração.

Isso porque, segundo ele, cerca de três milhões de votos deixaram de ser computados "devido a inconsistências" verificadas nas atas que continham os resultados da apuração, enviadas pelos mesários. Algumas tinham sido preenchidas de forma equivocada; outras não eram legíveis. No entanto, garantiu Ugalde, cada um dos votos contidos nas urnas referentes àquelas atas serão contabilizados a partir das 8h de hoje. E, por isso, poderia ser alterado o resultado que o próprio IFE divulgara.

Depois de averiguar as atas referentes a 98,45% dos votos, a entidade informara que havia concluído o seu trabalho. E as cifras indicavam uma virtual vitória de Felipe Calderón, do Partido Ação Nacional (PAN) já que ele tinha uma vantagem de 1,04% (400 mil votos) sobre Andrés Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático (PRD).

Diante disso, o perdedor estrilou, ameaçando solicitar a impugnação da eleição e, inclusive, convocar seus simpatizantes a manifestações públicas para protestar contra uma eventual fraude. Isso porque - segundo ele - era ignorado o destino de três milhões de votos:

- Esses votos desapareceram, o que mostra que o Programa de Resultados Eleitorais Preliminares do IFE foi manipulado - acusou López Obrador.

Ele disse isso exibindo papéis com registros do IFE indicando que 42 milhões de mexicanos haviam votado, mas que a sua apuração preliminar apontava apenas 39 milhões de votos. Três milhões, portanto, teriam sumido - na versão do candidato. Ugalde, então, respondeu que a denúncia era indevida. E deu a entender que López Obrador estava apenas buscando conturbar o ambiente, pois ele na verdade já teria sido informado a respeito:

- Nós já havíamos notificado a todos os partidos que colocaríamos esses três milhões de votos à parte para uma revisão detalhada posteriormente.

Calderón foi diplomático ao comentar a situação:

- Compreendo a situação de López Obrador. Faço votos para que prevaleça o espírito democrático.

A denúncia do candidato esquerdista tinha sido reforçada pelo fato de o IFE não ter divulgado ao público, anteriormente, a existência dos três milhões de votos que foram congelados à espera de uma apuração mais detalhada. Esse pacote, junto com as atas referentes às urnas já contabilizadas pelo IFE, serão agora computados numa operação que começa hoje de manhã, na Cidade do México, diante de fiscais de todos os partidos.

Esse processo poderá levar de dois a três dias. O resultado, portanto, poderá ser conhecido apenas no próximo fim de semana, aumentando mais ainda a angústia dos eleitores.

Segundo Ugalde, os restantes 1,55% que não tinham sido considerados na contagem preliminar (o IFE computou 98,45%) também serão verificados agora. Eles ficaram de fora porque os encarregados de algumas mesas eleitorais colocaram as atas - com os resultados que tinham apurado - dentro de pacotes lacrados, contendo as cédulas, em vez de entregar os documentos separadamente, como era devido.

- Temos total confiança de que se todos os votos forem contados nós ganharemos a eleição - disse Manuel Camacho Solis, principal coordenador da campanha de López Obrador.