Título: DÓLAR SOBE E BOLSA CAI COM TENSÃO NA CORÉIA
Autor: Patricia Eloy
Fonte: O Globo, 06/07/2006, Economia, p. 25

Moeda americana fecha em alta de 1,38%. Bovespa acompanha o mercado internacional e recua 2,65%

Os testes com mísseis realizados nos dois últimos dias pela Coréia do Norte levaram um clima de tensão aos mercados financeiros globais, à medida em que crescem os temores de que o país esteja próximo de construir uma bomba atômica. Tais receios, somados a um novo recorde nas cotações do barril de petróleo - que ultrapassaram os US$75 ontem - provocaram a uma queda generalizada das bolsas mundiais, bem como a valorização do dólar frente às principais moedas.

O efeito dominó começou na bolsa do Japão e se estendeu pela Europa, Estados Unidos e Brasil, onde a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegou a cair quase 3%, para encerrar o pregão com perdas de 2,65% e apenas quatro ações em alta. O dólar fechou em alta de 1,38% em relação ao real, cotado a R$2,20. Ontem, o euro recuou 0,41% frente ao dólar e à libra esterlina, 0,5%.

Nos EUA, bolsas chegarama cair mais de 1,6%

No Japão, o índice Nikkei fechou em queda de 0,73% e, nos Estados Unidos, a bolsa eletrônica Nasdaq e o índice S&P 500 encerraram o dia em queda de 1,69% e 0,72%, respectivamente. Na França, a bolsa recuou 1,26% e, na Alemanha, 1,80%.

- Os testes na Coréia do Norte chegaram num momento em que os mercados, especialmente a Bolsa, vinham numa trajetória de forte recuperação. Então, embora existam fundamentos para a queda de hoje (ontem), há também o interesse dos investidores em buscar motivos para colocar no bolso o lucro recente - explica Álvaro Bandeira, diretor da corretora Ágora Senior.

Segundo Mário Battistel, diretor de câmbio da corretora Novação, os testes com mísseis na Coréia aumentam a tensão global e geram uma busca por proteção por investidores em todo o mundo, caracterizada pela venda de ações na Bolsa e pela compra de dólares no mercado:

- Por isso, ontem, mesmo sem a atuação do Banco Central (BC) após dois dias de compras no mercado à vista, o dólar acabou encerrando os negócios em alta. Outro efeito colateral do maior receio dos investidores foi o fraco volume de negócios, que foi inferior a US$1,3 bilhão. É bem menos que o US$1,5 bilhão negociado na véspera e que a média de cerca de US$2 bilhões em junho. E, com menos negócios, as compras tendem a ter um impacto maior sobre as cotações.

As incertezas no cenário internacional motivaram a venda de títulos de mercados emergentes, considerados mais arriscados pelos investidores. O Global 40, título brasileiro mais negociado no exterior, teve desvalorização de 0,92%, cotado a 123,6% do valor de face. Durante o dia, o risco-Brasil - indicador da confiança dos investidores estrangeiros no país - chegou a subir 1,21%, mas acabou recuando 0,81% no fim do dia, para 245 pontos centesimais.

A alta do dólar e o novo recorde na cotação do petróleo levantaram temores de pressão inflacionária, o que fez subir a taxa projetada pelos contratos futuros de juros negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). No mais negociado, com vencimento em janeiro de 2008, as taxas subiram de 14,9% para 15,1% ao ano.

Segundo analistas, com os testes nucleares e possibilidades de novas altas nos juros americanos, o mercado brasileiro pode enfrentar um novo período de correção nos preços dos ativos. Para o analista Bruno Pereira, do UBS, o Federal Reserve (o banco central americano) subirá os juros mais duas vezes, levando a taxa para próximo dos 6% ao ano, uma expectativa com a qual o mercado ainda não trabalha.