Título: A REVIRAVOLTA DA REVIRAVOLTA
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 07/07/2006, O Mundo, p. 31
Felipe Calderón vence no México por 236 mil votos mas López Obrador quer impugnar eleição
Inconformado com a sua derrota na eleição presidencial mexicana por uma margem mínima ¿ nada mais do que 0,58% ponto percentual, equivalente a 236.006 votos, de um total de 42 milhões ¿ Andrés Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático (PRD), decidiu recorrer à Justiça para impugnar o processo eleitoral, dizendo-se vítima de fraude e conspiração perpetradas pelo governo para favorecer o seu candidato, Felipe Calderón, do Partido Ação Nacional (PAN).
Num já esperado lance dramático, ao anunciar o seu recurso na manhã de ontem, López Obrador convocou os seus simpatizantes ¿ praticamente a metade dos eleitores ¿ a participarem de uma concentração amanhã à tarde no centro da Cidade do México, dizendo que ali dará mais detalhes sobre o conflito judicial que pretende iniciar.
A lei prevê um prazo de quatro dias ¿ a partir do anúncio oficial do resultado, feito ontem à noite ¿ para que os queixosos apresentem um pedido de impugnação.
¿ Ninguém pode se proclamar vencedor. A verdade é que eles sabem muito bem que não há o que festejar. Tudo é muito forçado. Não há alegria, não há certeza, porque eles sabem muito bem o que fizeram. Nós triunfamos ¿ bradou López Obrador, referindo-se aos simpatizantes do PAN e a Calderón.
Eles haviam iniciado a comemoração do resultado antecipadamente, em frente à sede daquela entidade, pouco antes das 4h da madrugada de ontem, quando o Instituto Federal Eleitoral (IFE) anunciou que ele ultrapassara o adversário na contagem, exatamente quando tinham sido apurados 97,7 por cento dos votos. Até então López Obrador mantivera a liderança, que jamais recuperaria daí por diante:
¿ Nós vamos apelar ao Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação porque não podemos reconhecer e nem aceitar o resultado. Para descrever o que acontece de maneira delicada, digo que há muitas inconsistências e também muitas irregularidades nessa apuração ¿ acusou o candidato, insistindo, como já o fizera logo no início da contagem dos resultados das atas das mesas eleitorais, em solicitar que se faça uma nova contagem de cada um dos votos.
IFE: `Eleição limpa e transparente¿
Exultante com o resultado da apuração, Calderón foi firme em sua reação à iniciativa do adversário. Ele a definiu ¿um capricho¿:
¿ Não se podem anular 42 milhões de votos pelo capricho de ninguém. É preciso considerar que o México é um país não só democrático, como também de legalidade. E a certeza (do resultado da apuração) vem justamente do cumprimento da lei ¿ ressaltou.
Em entrevista, o presidente do IFE, Luis Carlos Ugalde, disse que a eleição foi ¿limpa e transparente¿. Imediatamente após a convocação de López Obrador, surgiram focos de repúdio ao resultado em várias partes da capital mexicana, fazendo as autoridades temerem distúrbios amanhã. Por sua vez, Gerardo Fernández Noroña, porta-voz do PRD, apressou-se em dizer que a concentração convocada pelo candidato derrotado seria pacífica. Manuel Espino, presidente do PAN, reagiu cautelosamente. Ele disse que confiava ¿na força pacífica dos cidadãos para defender a vontade do povo mexicano expressada nas urnas¿. E completou:
¿ Calderón vai procurar, através do diálogo, a unidade, a paz, a harmonia e, sobretudo, demonstrar uma determinação permanente de entender as diferenças (com quem não votou nele) para fazer bem ao México ¿ afirmou Espino.
Essa derrota de López Obrador é muito parecida com a que ele sofreu em 1994, quando perdeu a eleição para governador de Tabasco, o seu estado, para Roberto Madrazo, do Partido Revolucionário Institucional (PRI) ¿ e que, agora, ficou em terceiro lugar na disputa para a Presidência da República.
Naquela época López Obrador lançou mão do mesmo recurso dramático: convocou seus simpatizantes às ruas e, em seguida, trabalhou o tempo todo para minar a frágil administração de Madrazo. A perspectiva é que agora ele tente fazer o mesmo em relação a Calderón ¿ já que a derrota por uma margem ínfima o qualifica como o opositor mais poderoso do novo governo.