Título: AMBIÇÕES MODESTAS DEPOIS DAS DENÚNCIAS
Autor: Alan Gripp
Fonte: O Globo, 09/07/2006, O País, p. 3

Nomes que cogitavam até a Presidência contentam-se com uma vaga na Câmara

BRASÍLIA. Se as denúncias de envolvimento em escândalos de corrupção não foram suficientes para afastar do poder os políticos sob suspeita, elas colocaram por terra os planos de vôos mais altos. Antes das primeiras denúncias do valerioduto, os nomes mais influentes em Brasília almejavam as cadeiras de senador, governador e até a de presidente da República em 2010. Hoje, apesar de confiantes, contentam-se com uma vaga na Câmara que lhes permitam reconstruir o patrimônio político perdido.

O exemplo mais emblemático é o do ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda). Ministro que formava a espinha dorsal do governo Lula, fazia planos de se tornar o homem mais influente de um possível segundo mandato do presidente para então acalentar o sonho de chegar ao Palácio do Planalto em 2010. Seus planos ruíram com a série de acusações de seus ex-assessores em Ribeirão Preto e com a denúncia de que ordenou a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa.

Outros parlamentares foram obrigados a pôr os pés no chão, como o deputado Nilton Capixaba (PTB-RO), segundo-secretário da Câmara, que, acusado de integrar a máfia dos sanguessugas, decidiu na última hora retirar sua candidatura ao Senado.

¿ Eu estava isolado na frente nas pesquisas, não tinha concorrente aqui em Rondônia. Agora, como posso confiar na vitória com um tiroteio como esse que estou sofrendo, sem ter tido uma única chance de me defender? ¿ reclama Capixaba, que, no entanto, confia na reeleição.

João Paulo sonhava com o governo de São Paulo

Também tinham ambições maiores o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP), que sonhava com o governo de São Paulo; o ex-líder do PL Sandro Mabel (GO), que planejava governar Goiás; e o ex-líder do PP deputado Pedro Henry (MT), que tinha planos de disputar uma vaga no Senado.

Mas há também o bloco dos parlamentares que agradecem aos céus por terem sido absolvidos em processos de cassação. Em geral, os integrantes deste grupo já planejavam um novo mandato e, a três meses do encontro com as urnas, acreditam ter obtido o perdão dos eleitores cativos.

¿ É claro que acredito na minha reeleição! ¿ repetiu diversas vezes esta semana o petista professor Luizinho (SP), acusado de receber R$20 mil do empresário Marcos Valério.

`É a tortura pós-moderna, que atinge a alma¿, diz Genoino

Outros não vão fugir do tema na campanha. Mas, sim, adotar o discurso de que foram condenados em um processo violento conduzido ¿pelas elites¿. Ex-presidente do PT, José Genoino vai além: em seu site, compara os últimos meses ao período da ditadura e chega a dizer que foi torturado novamente. ¿É a tortura pós-moderna, que atinge a alma, o sentimento, a auto-estima, mexe por dentro violentamente. Nos anos 70 fui torturado no corpo, agora, na alma...¿, diz um trecho de uma carta aberta endereçada a seus eleitores.

Entre os que desistiram da vida política, o discurso não é menos ressentido. Roberto Brant (PFL-MG), único integrante da oposição denunciado por envolvimento no valerioduto, se diz perseguido.

¿ Estou convicto de que não tem mais lugar para mim no Parlamento. Desistir é minha maneira pessoal de protestar contra um processo hipócrita e injusto que sofri. Fui lançado no mesmo saco. Sou mais digno do que todas as pessoas que me lançaram neste processo ¿ afirma Brant, que, depois de cinco mandatos, diz que vai procurar emprego a partir de janeiro.

¿ Sou pobre e preciso trabalhar para viver.

Único que ainda não foi julgado pela Câmara por envolvimento no valerioduto, José Janene (PP-PR), que não é candidato, diz que sua saída da vida política foi precoce em função de problemas de saúde:

¿ Teve uma hora em que tive que decidir entre a vida política e a minha vida e a de meus filhos.

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