Título: CHINA ENVELHECE E TEME ROMBO NA PREVIDÊNCIA
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 09/07/2006, Economia, p. 36
Déficit, hoje em R$680 bi, tende a se agravar devido à política do filho único, que reduziu o número de contribuintes
PEQUIM. Não é apenas no terreno econômico que a China anda acelerada. A Comissão Nacional de População e Planejamento Familiar ¿ que, desde a década de 70, cuida da política do filho único ¿ informou que os chineses estão deixando de ser uma nação de jovens para entrar no grupo de países em que os idosos representam fatia expressiva da população. Por causa do próprio planejamento familiar, que limita a um único filho as famílias nas grandes cidades, e da melhora na qualidade de vida decorrente do crescimento econômico, a fatia de pessoas com 60 anos ou mais correspondia, ano passado, a 11,3% da população. Ou cerca de 147 milhões.
As previsões são alarmantes. Segundo a Comissão, em 2010 esta fatia vai subir para 12,57% da população, ou 174 milhões (quase um Brasil). E em 2020 os idosos serão 243 milhões, ou 17% da população. Em 2040, 397 milhões. O problema é que o comunismo chinês não resolveu uma conta que não bate em quase todo o mundo: a da Previdência.
¿ O envelhecimento da população chinesa, especialmente a do campo, e a garantia de boas aposentadorias para toda essa gente no futuro representam um dos maiores desafios para o governo chinês, e é certo que o sistema precisa de reformas ¿ afirma Yan Zhong Xin, chefe do setor de Administração de Seguridade Social do Ministério do Trabalho e da Previdência Social.
`Fortune¿: em 2040 haverá 2 trabalhadores por aposentado
Mais da metade dos idosos chineses é bancada pelos filhos, hoje a mais popular forma de aposentadoria do país, especialmente no campo, onde falta infra-estrutura. Somente 48 milhões de idosos (a maioria nas grandes cidades) têm aposentadoria, segundo o governo.
Novamente, são as projeções que assustam. O número de chineses que contribuem para a Previdência hoje chega a 175 milhões, diz Yan, o equivalente a 3,6 contribuintes para cada aposentado. Mas como a política do filho único vai restringir a quantidade de jovens, essa relação tende a piorar. Segundo reportagem da revista ¿Fortune¿ de junho (com o título ¿China vai do vermelho ao grisalho¿), o pico de trabalhadores na China será atingido em 2010. E a relação trabalhador-aposentado, que em 2000 era de seis para um, passará a dois para um em 2040 se nada for feito.
E ainda há o déficit. Segundo o próprio Ministério do Trabalho, o déficit chinês (incluídos todos os benefícios pagos, não apenas os da aposentadoria) é de 2,5 trilhões de yuans ¿ R$680 bilhões, menos da metade do PIB do Brasil.
Mas o governo chinês, consciente da gravidade da situação, vem reformando um sistema que, de 1950 até 1984, praticamente inexistia. Como ocorre hoje no campo, ele era, em grande parte, fundado no compromisso de os filhos bancarem pais ou na disposição da pessoa para trabalhar até morrer. As mudanças se tornaram urgentes após a abertura econômica, quando as estatais dispensaram milhões de empregados, a maioria com aposentadorias incentivadas, nos anos 80 e 90.
Em 1997, o governo criou um sistema previdenciário urbano. Por ele, os empregadores contribuem com o equivalente a 20% do salário do funcionário, e este, com 8%. Para se aposentar é preciso ter contribuído por pelo menos 15 anos quando atingir a idade mínima: 60 anos para os homens, 55 para as mulheres filiadas ao Partido Comunista e 50 para as demais.
No campo, prevalece a tradição de ajuda familiar, misturada a um sistema que inclui contribuições voluntárias individuais e de cooperativas. Mas, segundo o governo, apenas 1,98 milhão de camponeses recebem aposentadorias rurais.
Idosos urbanos se dizem satisfeitos com sistema
O que cria duas categorias de idosos na China. Os urbanos, cobertos pelo sistema público (o governo paga 95% dos gastos com médico e hospital), e os rurais, que têm rendimentos minguados ou são bancados pelos filhos, muitos migrantes nas grandes cidades. Os aposentados urbanos não têm queixas:
¿ Minha geração viveu muitos problemas e a qualidade de vida era bem inferior. Então, mesmo com uma aposentadoria de 1.700 yuans (R$462), levo uma vida tranqüila e feliz ¿ conta Zhou Feng Ying, de 71 anos.
O operário aposentado Wang Rui Yang, de 60 anos, tem outra explicação, mais filosófica:
¿ Minha geração ainda é influenciada por antigos conceitos comunistas e não há o consumismo que move os mais jovens ¿ diz Wang, que recebe 1.600 yuans mensais (R$435). ¿ Tendo onde morar, comida na mesa, saúde e podendo confraternizar com os amigos, levo uma velhice feliz.
¿ Minha felicidade é composta de coisas simples ¿ concorda He Donghua, de 62 anos, integrante de um coral que, nos fins de semana de verão, canta no Jardim do Bambu Púrpura, em Pequim.
Pu De Lin, 73 anos, e Yan Gui Sem, 65 anos, que domingo passado jogavam Kong Zhu (espécie de pião) e soltavam pipa no parque Chaoyang, em Pequim, acham que têm sorte. Pu ganha 3 mil yuans (R$815) como policial aposentado e Yan, 2 mil yuans (R$545) como funcionário aposentado da estatal de petróleo Sinopec.
¿ Minha carteira de aposentado dá direito a descontos em cinemas e parques e o que eu ganho dá para me sustentar, e a minha mulher, com conforto ¿ diz Pu. ¿ Não tenho luxos.
¿ O governo banca a compra de medicamentos, que são caríssimos, mas felizmente estou bem de saúde. Imagino que quem não tem a felicidade de uma aposentadoria e ainda dependa dos filhos esteja muito pior ¿ afirma Yan.
A política do filho único criou o chamado ¿fenômeno 4-2-1¿ ¿ ou seja, cabe à geração que começa a se casar a responsabilidade de tomar conta não apenas dos seus pais, mas de seus avós. Li Honggui, vice-presidente da Sociedade de Estudos de População da China, informa que as famílias chinesas passaram de 4,43 pessoas, em média, em 1982, para 3,6 hoje.
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