Título: MÉXICO: SUSPENSE APESAR DE VITÓRIA ANUNCIADA
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 09/07/2006, O Mundo, p. 43
Calderón é tratado como `virtual vencedor¿, enquanto país concentra atenção sobre possíveis reações de López Obrador
CIDADE DO MÉXICO. Ele é o presidente eleito do México. No entanto, Felipe Calderón vem sendo chamado apenas de ¿vencedor virtual¿ ou ¿candidato ganhador¿ desde a noite de quinta-feira, quando o Instituto Federal Eleitoral (IFE) anunciou a sua vitória ¿ por mero 0,58 ponto percentual ¿ nas eleições presidenciais do último domingo.
Ele, como era de se esperar, tem certeza de sua vitória. Mas, cuidadoso, sempre que se refere às ações que pretende tomar em seu governo, começa a frase em tom de cautela: ¿Depois que o Tribunal Federal Eleitoral confirmar a minha vitória...¿
Muito embora tivesse iniciado dois dias atrás uma série de eventos públicos para expor mais detalhadamente os seus planos de ação, e já se sentindo como um presidente eleito, o próprio Calderón estava determinado a evitar utilizar esse título até que o tribunal tomasse uma decisão.
¿ Ele é muito prudente e tem pedido a todos nós, e inclusive aos seus amigos, para evitar chamá-lo de presidente, por enquanto ¿ contou ao GLOBO a sua porta-voz Gladis Boladeras.
Poucos acreditam em mudança de resultado
Tirando de cena os 14,7 milhões de eleitores que votaram em Andrés Manuel López Obrador, do esquerdista Partido Revolucionário Democrático (PRD) ¿ que está solicitando judicialmente uma nova contagem de votos ¿ poucos mexicanos crêem que a Justiça promoverá uma reviravolta no resultado da eleição.
Para o acadêmico José Woldenberg, ex-presidente do IFE, não há sentido algum em que se dramatize o pedido de impugnação apresentado pelo candidato esquerdista. Para ele, em vez de se preocupar com os números da apuração, os mexicanos deveriam estar apreensivos com o futuro próximo.
¿ Aconteça o que acontecer, o México terá um presidente legítimo. A questão é saber se ele será capaz de construir maiorias no Congresso ao longo dos seis anos de governo. Como a casa está dividida de forma equilibrada entre três partidos, o desafio do novo presidente será cativar pelo menos uma parcela dos outros dois. Sem isso o país não terá futuro ¿ disse Woldenberg.
Apesar disso, no momento as atenções estão concentradas na batalha judicial que, na opinião de vários analistas, poderia acabar se transformando num irremediável conflito pós-eleitoral. Tudo vai depender das reações de López Obrador à decisão do tribunal eleitoral.
¿ O tom das recentes declarações dele deixam ver que dificilmente aceitaria uma derrota. E isso poderia levar a mobilizações e protestos em praça pública que nada ajudariam a nossa jovem democracia ¿ disse Cesar Cansino, diretor do Centro de Estudos de Política Comparada.
O impasse é preocupante. As cifras o refletem com nitidez: Calderón venceu em 16 estados, López Obrador nos restantes 15. Para o ex-chanceler Jorge Castañeda, um dos intelectuais mais influentes do país, o grande perigo está justamente na obstinada teimosia do candidato do PRD:
¿ O risco é que López Obrador leve as coisas demasiado longe e, assim, não haja espaço para recuar e para que sua gente possa aceitar que perdeu.
Para o analista político Ramón Cota Meza, a incipiente democracia mexicana sofreu um grande golpe com a acirrada e agressiva disputa eleitoral. Nascida há seis anos, quando a eleição do presidente Vicente Fox, do PAN, marcou o fim de 71 anos consecutivos da virtual ditadura do Partido Revolucionário Institucional (PRI), tropeçou agora num fator que ¿ segundo Cota Meza ¿ minou o poder presidencial.
¿ A melhor evidência de excesso político foi a elevação do IFE, o árbitro eleitoral, à condição de herói. Uma competição em que o árbitro é o mocinho do filme não é muito emocionante. Estamos como no Mundial de futebol, onde os árbitros têm sido mais ativos do que os jogadores ¿ comparou o analista.
Menos pessimista, Pablo Marentes, professor da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Autônoma do México, argumentou que os mexicanos precisam ser pacientes com a democracia, pois ela é lenta:
¿ A democracia demora em chegar. Ela se deixa acariciar por todos, mas não se entrega facilmente. É conveniente seguir enamorando-a, cortejando-a. É indispensável não sentir-se desprezado nem incompreendido por ela. É tarefa de todos conquistá-la, seduzi-la, para que não vá embora. E para isso é preciso prudência, concórdia e sintonia de corações.